UM MÊS, UMA PEÇA EX LIBRIS JOÃO PAULO II, na coleção de Carlos Cabral Vilas-Boas
1.
Muitas
pessoas adotam a prática de marcar os livros que lhes pertencem,
escrevendo o seu nome, apondo uma rubrica ou usando um carimbo. Quando
utilizamos livros de bibliotecas públicas ou privadas, de sociedades
científicas, de associações profissionais é também comum encontrarmos
marcas que identificam a pertença do livro a essas mesmas entidades.
Há
uma razão maior para esta prática que é a de sinalizar a propriedade do
livro e de, em caso de extravio, se aumentar a probabilidade de ele
poder ser recuperado.
O
uso de marcas de propriedade nos documentos escritos é um hábito muito
antigo; no British Museum, em Londres, encontra-se depositada uma placa
de faiança, pertencente à biblioteca do Faraó Amenhotep III (sec. XIV A.
C), que provavelmente seria utilizada como etiqueta de uma caixa
contendo rolos de papiro.
Na
cultura ocidental, a partir do último quartel do século XV, em paralelo
com a invenção da imprensa, começa a aparecer nos territórios
germânicos uma forma específica de marcas de posse, que mais tarde se
vêm a designar ex libris ou ex-líbris (dos livros de). Trata-se
de pequenas gravuras, que raramente ultrapassam os 12 cm, de início
sobretudo xilogravuras, que eram coladas no interior dos livros.
O uso de ex libris
está documentado em Portugal a partir do século XVI, sob a forma de
gravuras heráldicas, numa prática objetivamente reservada ao alto clero e
à alta nobreza. O seu uso vai-se expandindo ao longo dos séculos
subsequentes e ganha especial relevo nos séculos XIX e inícios do século
XX.
O ex libris
tem uma função primordial – identificar o possuidor do livro. O modo
como esta função era concretizada – através de gravuras, em muitos casos
de significativo valor artístico – vieram a torná-lo um objeto muito
relevante nos domínios da história do livro, da bibliofilia e das
próprias artes gráficas.
Na sua composição mais complexa, o ex libris incluía a expressão ex libris,
o nome do possuidor, uma figuração, que pode ser heráldica, religiosa,
alegórica ou paisagista, e um lema, que exprime um ideal, uma convicção
ou uma aspiração do proprietário, bem como informação sobre o autor da
figuração e o respetivo gravador.
Nesta perspetiva, os ex libris
constituem fontes importantes para processos de reconstituição de
bibliotecas que o tempo foi desagregando, para o conhecimento da
circulação dos livros, para a caracterização histórica das práticas de
leitura, bem como para a história de instituições culturais, educativas e
profissionais e do desenvolvimento das próprias práticas artísticas,
dada a sua forte ligação com a história da gravura.
Os ex libris
desde a sua origem foram produzidos com recurso a técnicas de gravura
que possibilitavam a produção de múltiplos a partir de uma matriz – a
xilogravura, o buril, a água-forte, a água-tinta, a ponta seca, a
litografia, a linogravura, a serigrafia e, mais recentemente, a gravura
digital.
A qualidade artística dos ex libris
veio a torná-los uma forma de arte em si e a transformá-los em objeto
de coleção; recorde-se, de passagem, que Albrecht Dürer (1471-1528),
trabalhando em madeira (xilogravura), foi autor de alguns dos mais
célebres ex libris, incluindo o que efetuou para o humanista germânico Willibald Pirckheimer (1470–1530).
2.
O colecionismo de ex libris,
que implica, em alguma medida, uma redefinição das suas funções (a sua
colocação num livro, como marca de posse, é elemento essencial da sua
caracterização) conheceu grande desenvolvimento sobretudo durante a
primeira metade do século XX; este movimento assegurou, aliás, a
salvaguarda de um património artístico e documental de grande valor.
A Sociedade Martins Sarmento integra hoje na sua Biblioteca/Arquivo uma importante coleção de ex libris
organizada pelo Dr. Carlos Cabral Vilas-Boas e doada à Instituição por
sua esposa a Senhora Dona Maria José Falcão Trigoso de Siqueira da
Cunha. A Coleção inclui mais de um milhar de espécimes, portugueses e
estrangeiros, na sua maioria heráldicos, devidamente organizados e
identificados.
Foi desta excelente coleção que respigámos o ex libris que constitui o objeto do mês da Sociedade Martins Sarmento.
São elementos essenciais deste ex libris:
a expressão ex libris, que indica a pertença a uma biblioteca; o brasão
papal, com um escudo no qual, remetendo para Cristo, sobressai a cruz
latina, tendo um M no quadrante inferior direito, evocação da presença
de Maria junto da Cruz; sob o brasão, o lema totus tuus, assumido
por João Paulo II, exprimindo a consagração a Maria e dando corpo à sua
espiritualidade pessoal; a reprodução da assinatura pessoal do Papa;
finalmente, o nome do autor do ex libris, Antoni Franciszek Króll, artista gráfico de origem polaca.
Não foi possível encontrar evidências de que este ex libris
tenha sido usado pelo Papa. A hipótese mais plausível é de que ele faça
parte de um conjunto de obras desta natureza que foram concebidos em
sua honra e a ele dedicados. Na Polónia, após a eleição de Karol
Wojtyla, foram produzidos muitos ex libris com estas características, no quadro de concursos e exposições, entre outras circunstâncias.
O facto de este ex libris em
particular não aparecer identificado e descrito em bases de dados
públicas pode significar que ele teve uma tiragem muito limitada,
circunscrita ao circuito de bibliófilos e colecionadores, o que lhe
confere um interesse e valor acrescido.
*Os leitores interessados na temática dos ex libris
encontram na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento um excelente
livro de introdução ao tema, da autoria de Fausto Moreira Rato, o Manual de Ex-Librística. Subsídios para a História e Arte dos Ex-líbris,
publicado pela Imprensa Nacional–Casa da Moeda, em 1976, um volume
abundantemente ilustrado, que é a principal obra portuguesa sobre ex lbris.
Rui Vieira de Castro
No âmbito do programa “Um mês, uma peça”, o EX LIBRIS JOÃO PAULO II, na coleção de Carlos Cabral Vilas-Boas estará em exposição, na sede da Sociedade Martins Sarmento, durante o mês de agosto. Este ex libris encontra-se descrito no Catálogo Digital da Biblioteca, onde pode ser consultado.
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