04 agosto, 2026

UM MÊS, UMA PEÇA EX LIBRIS JOÃO PAULO II, na coleção de Carlos Cabral Vilas-Boas


1.
Muitas pessoas adotam a prática de marcar os livros que lhes pertencem, escrevendo o seu nome, apondo uma rubrica ou usando um carimbo. Quando utilizamos livros de bibliotecas públicas ou privadas, de sociedades científicas, de associações profissionais é também comum encontrarmos marcas que identificam a pertença do livro a essas mesmas entidades.
Há uma razão maior para esta prática que é a de sinalizar a propriedade do livro e de, em caso de extravio, se aumentar a probabilidade de ele poder ser recuperado.
O uso de marcas de propriedade nos documentos escritos é um hábito muito antigo; no British Museum, em Londres, encontra-se depositada uma placa de faiança, pertencente à biblioteca do Faraó Amenhotep III (sec. XIV A. C), que provavelmente seria utilizada como etiqueta de uma caixa contendo rolos de papiro.
Na cultura ocidental, a partir do último quartel do século XV, em paralelo com a invenção da imprensa, começa a aparecer nos territórios germânicos uma forma específica de marcas de posse, que mais tarde se vêm a designar ex libris ou ex-líbris (dos livros de). Trata-se de pequenas gravuras, que raramente ultrapassam os 12 cm, de início sobretudo xilogravuras, que eram coladas no interior dos livros.
O uso de ex libris está documentado em Portugal a partir do século XVI, sob a forma de gravuras heráldicas, numa prática objetivamente reservada ao alto clero e à alta nobreza. O seu uso vai-se expandindo ao longo dos séculos subsequentes e ganha especial relevo nos séculos XIX e inícios do século XX.
O ex libris tem uma função primordial – identificar o possuidor do livro. O modo como esta função era concretizada – através de gravuras, em muitos casos de significativo valor artístico – vieram a torná-lo um objeto muito relevante nos domínios da história do livro, da bibliofilia e das próprias artes gráficas.
Na sua composição mais complexa, o ex libris incluía a expressão ex libris, o nome do possuidor, uma figuração, que pode ser heráldica, religiosa, alegórica ou paisagista, e um lema, que exprime um ideal, uma convicção ou uma aspiração do proprietário, bem como informação sobre o autor da figuração e o respetivo gravador.
Nesta perspetiva, os ex libris constituem fontes importantes para processos de reconstituição de bibliotecas que o tempo foi desagregando, para o conhecimento da circulação dos livros, para a caracterização histórica das práticas de leitura, bem como para a história de instituições culturais, educativas e profissionais e do desenvolvimento das próprias práticas artísticas, dada a sua forte ligação com a história da gravura.
Os ex libris desde a sua origem foram produzidos com recurso a técnicas de gravura que possibilitavam a produção de múltiplos a partir de uma matriz – a xilogravura, o buril, a água-forte, a água-tinta, a ponta seca, a litografia, a linogravura, a serigrafia e, mais recentemente, a gravura digital.
A qualidade artística dos ex libris veio a torná-los uma forma de arte em si e a transformá-los em objeto de coleção; recorde-se, de passagem, que Albrecht Dürer (1471-1528), trabalhando em madeira (xilogravura), foi autor de alguns dos mais célebres ex libris, incluindo o que efetuou para o humanista germânico Willibald Pirckheimer (1470–1530).
2.
O colecionismo de ex libris, que implica, em alguma medida, uma redefinição das suas funções (a sua colocação num livro, como marca de posse, é elemento essencial da sua caracterização) conheceu grande desenvolvimento sobretudo durante a primeira metade do século XX; este movimento assegurou, aliás, a salvaguarda de um património artístico e documental de grande valor.
A Sociedade Martins Sarmento integra hoje na sua Biblioteca/Arquivo uma importante coleção de ex libris organizada pelo Dr. Carlos Cabral Vilas-Boas e doada à Instituição por sua esposa a Senhora Dona Maria José Falcão Trigoso de Siqueira da Cunha. A Coleção inclui mais de um milhar de espécimes, portugueses e estrangeiros, na sua maioria heráldicos, devidamente organizados e identificados.
Foi desta excelente coleção que respigámos o ex libris que constitui o objeto do mês da Sociedade Martins Sarmento.
 
São elementos essenciais deste ex libris: a expressão ex libris, que indica a pertença a uma biblioteca; o brasão papal, com um escudo no qual, remetendo para Cristo, sobressai a cruz latina, tendo um M no quadrante inferior direito, evocação da presença de Maria junto da Cruz; sob o brasão, o lema totus tuus, assumido por João Paulo II, exprimindo a consagração a Maria e dando corpo à sua espiritualidade pessoal; a reprodução da assinatura pessoal do Papa; finalmente, o nome do autor do ex libris, Antoni Franciszek Króll, artista gráfico de origem polaca.
Não foi possível encontrar evidências de que este ex libris tenha sido usado pelo Papa. A hipótese mais plausível é de que ele faça parte de um conjunto de obras desta natureza que foram concebidos em sua honra e a ele dedicados. Na Polónia, após a eleição de Karol Wojtyla, foram produzidos muitos ex libris com estas características, no quadro de concursos e exposições, entre outras circunstâncias.
O facto de este ex libris em particular não aparecer identificado e descrito em bases de dados públicas pode significar que ele teve uma tiragem muito limitada, circunscrita ao circuito de bibliófilos e colecionadores, o que lhe confere um interesse e valor acrescido.

*Os leitores interessados na temática dos ex libris encontram na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento um excelente livro de introdução ao tema, da autoria de Fausto Moreira Rato, o Manual de Ex-Librística. Subsídios para a História e Arte dos Ex-líbris, publicado pela Imprensa Nacional–Casa da Moeda, em 1976, um volume abundantemente ilustrado, que é a principal obra portuguesa sobre ex lbris.
Rui Vieira de Castro

No âmbito do programa “Um mês, uma peça”, o EX LIBRIS JOÃO PAULO II, na coleção de Carlos Cabral Vilas-Boas estará em exposição, na sede da Sociedade Martins Sarmento, durante o mês de agosto. Este ex libris encontra-se descrito no Catálogo Digital da Biblioteca, onde pode ser consultado.

 


publicado por SMS às 11:33

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