D. JOÃO VI, O CLEMENTE, nos 200 anos da sua morte
D. JOÃO VI, O CLEMENTE, nos 200 anos da sua morte
Nos
200 anos que passam sobre a morte de D. João VI, a Sociedade Martins
Sarmento lembra a figura do monarca, o 27.º rei português, que ficou
conhecido pelo cognome de o Clemente.
D.
João VI nasceu no Palácio Real de Queluz, a 13 de maio de 1767, filho
da rainha D. Maria I e D. Pedro III. Casou com D. Carlota Joaquina, de
quem teve descendência. Era apreciador de música sacra, tendo
incentivado as artes e as letras.
Devido
à débil condição de saúde da rainha D. Maria I, e tendo o príncipe D.
José, herdeiro do trono, morrido, D. João VI assumiu o governo do país
em 1792, tornando-se oficialmente Príncipe Regente em 1799. Foi rei
entre 1816 e 1826.
Na
sequência das invasões francesas, transferiu a Corte Portuguesa para o
Brasil, tendo sido monarca do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves
até à independência do Brasil. Esta decisão, entendida por algumas
figuras da época como um acto de abandono do país, é lida, também, como
uma medida geopolítica que garantiu a independência de Portugal face aos
objetivos expansionistas de Napoleão Bonaparte. Por esta altura, D.
João VI mandou publicar um comunicado aos portugueses (nov. 1807), do
qual se transcreve um excerto:
“Tendo
procurado por todos os meios possiveis conservar a Neutralidade, de que
até agora tem gozado os Meus Fiéis e Amados Vassallos, e apezar de ter
exhaurido o Meu Real Erario, e de todos os mais Sacrificios, a que Me
Tenho sujeitado (...) E Querendo Eu evitar as funestas consequencias,
que se podem seguir de huma defesa, que seria mais nociva, que
proveitosa, servindo só de derramar sangue em prejuízo da humanidade, e
capaz de acender mais a dissenção de humas Tropas (…) que (...) se
dirigem muito particularmente contra a Minha Real Pessoa (...) Tenho
resolvido, em beneficio dos mesmos Vassallos, passar com a Rainha, Minha
Senhora e Mãe, e com toda a Real Família para os Estados da America, e
estabelecer-Me na Cidade do Rio de Janeiro até á Paz Geral”.
Como assinala Cláudia Chaves (2008) a
trajetória de D. João VI “(…) foi incomum, ocupou um lugar para o qual
não estava destinado, foi limitado [nos] seus poderes, atravessou um
oceano, tornou-se rei [num] novo reino, enfrentou a revolução liberal,
atravessou novamente o oceano, e jurou obediência à constituição
portuguesa”.
D.
João VI foi o primeiro “rei constitucional”. Jurou a Constituição
Portuguesa de 1822, nascida do movimento liberal, que assinalou
formalmente o fim do absolutismo e deu inicio à Monarquia
Constitucional, em Portugal. Este documento, para além de garantir os
direitos individuais e proclamar a igualdade dos cidadãos, incluía a
limitação dos poderes régios, no exercício das competências executivas
no país.
D.
João VI governou num período de grandes transformações políticas, no
país e na Europa. No decurso da sua atividade pública, teve de gerir os
impactos do movimento napoleónico, os conflitos entre a França e a
Inglaterra, à altura aliada de Portugal, o Ultimato/ Bloqueio
continental e a Guerra Peninsular. Em Portugal, o movimento liberal, os
episódios Vilafrancada e Abrilada, entre outros momentos, puseram à
prova a personalidade político-administrativa de D. João VI.
Atribui-se,
também, a D. João VI o desenvolvimento do comércio e da indústria no
Brasil, o fortalecimento das estruturas da administração e os corpos
sociais brasileiros. Destaca-se, também, o papel que desempenhou na
vacinação contra a varíola.
Contrariamente
à maioria das impressões que à época circulavam sobre D. João VI,
nomeadamente com referências à sua fraqueza e indecisão, John Luccok
(1820), comerciante inglês a viver no Brasil, referia que o monarca lhe
parecia “possuir muito mais sentimento e energia de caráter do que
ordinariamente lhe atribuem amigos e inimigos. Viu-se colocado em
circunstâncias singulares e de prova, e submeteu-se com paciência, mas
nos momentos críticos soube obrar com vigor e prontidão”.
A exposição D. João VI, o Clemente, apresenta um olhar sobre o rei português, cuja ação se desenvolveu numa conturbada época da história nacional e europeia.


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