DIA MUNDIAL DO LIVRO 2026 O BARÃO, uma peça de teatro de Luís de Sttau Monteiro. 1964.
DIA MUNDIAL DO LIVRO 2026
O BARÃO, uma peça de teatro de Luís de Sttau Monteiro. 1964.
A
Sociedade Martins Sarmento assinala o Dia Mundial do Livro e do Direito
do Autor, destacando da sua Biblioteca o livro “O Barão”, peça de
teatro de Luís Sttau Monteiro, que integra o Fundo de Teatro de Joaquim
António dos Santos Simões. Neste livro, o autor português “verteu” para a
linguagem teatral a narrativa homónima de Branquinho da Fonseca,
editada em 1942.
A
adaptação de “O Barão”, pelo olhar do escritor Sttau Monteiro,
apresenta a narrativa original de um episódio, um acontecimento
especial, que decorre durante uma noite, em que a personagem O Inspector (das
Escolas de Instrução Primária), deslocando-se em trabalho a uma aldeia
da serra do Barroso, cruza-se com várias outras personagens do enredo (O Barão, Idalina, A Bela Adormecida, A Professora, O Pai do Barão, O Mestre Alçada, Os Componentes da Tuna e os Figurantes) com especial destaque para a figura do Barão.
Esta personagem, nas palavras de David Mourão Ferreira (1998), é “um
ser que nos perturba, e revolta, e comove, com os seus defeitos e as
suas qualidades, as suas obsessões, os seus sonhos, a sua índole pessoal
e intransmissível”. A construção dramatúrgica de Sttau Monteiro recorre
a elementos que reforçam os posicionamentos do escritor, as indicações
cénicas traduzem o ambiente e a personalidade das personagens e dos
momentos da ação. Nestas indicações, convoca o leitor a reler a situação
político-social do país, um momento em que as manifestações artísticas
estavam sujeitas ao “parecer” do lápis azul (a censura).
A
intensa dramaticidade da obra de Branquinho da Fonseca (1905-1974)
atraiu Sttau Monteiro, que adaptou o texto original para uma peça de
teatro, continuando a dar vida à enigmática personagem de O Barão. Na
década de 40, a produtora Valerie Lewton demonstrou interesse na
história do livro de Branquinho, tendo mesmo iniciado algumas filmagens,
mas o projeto foi proibido pela censura. Em 2011 foi estreada uma
refilmagem do trabalho original, pelo realizador Edgar Pêra, a partir de
duas bobines e do argumento, encontrados anos antes.
Luís
de Sttau Monteiro nasceu em 1926 e faleceu em 1993. Licenciou-se em
Direito, pela Universidade de Lisboa, mas notabilizou-se no campo da
literatura, sendo considerado pelos críticos de literatura como uma
figura incontornável do século XX português. Luís de Sttau Monteiro foi
um escritor multifacetado. Destacou-se como dramaturgo, tendo escrito
várias peças e adaptações teatrais, elaborou textos no domínio do
romance, da crónica e do jornalismo. Foi colaborador em diversas
publicações periódicas, tradutor e, juntamente com Alexandre O' Neil,
escreveu os diálogos para o filme “Pássaros de asas cortadas”, de Artur
Ramos”. Alguns dos seus textos foram sendo revisitados, como é exemplo o
romance “Angústia para o jantar”, que foi adaptado para uma série de
televisão, pela RTP, tendo tido grande sucesso (em 1975).
Crítico
da política do Estado Novo, o escritor foi preso pela PIDE e alguns dos
seus textos foram censurados, como é exemplo a premiada peça para
teatro, “Felizmente há Luar!”, que só pôde ser representada depois do 25
de Abril.
Luís
de Sttau Monteiro denota na sua obra as suas convicções, o seu
pensamento social, assumindo-se um defensor da liberdade, da igualdade e
da justiça social. No romance “Angústia para o jantar” (1961) apresenta
uma crítica aos comportamentos da burguesia, em “Felizmente à Luar!”
(1961) e “O Barão”, entre outros títulos, denuncia a situação
político-social portuguesa da época.
Volvidos
100 anos sobre o nascimento de Sttau Monteiro, lembramos o escritor e a
sua obra, através do convite à leitura da peça “O Barão”, concretizando
o que o escritor, em 1971, registou numa das suas peças para teatro:
“Mesmo que outro tempo não venha no nosso tempo, ficam as peças a
atestar que fizemos o que devíamos e podíamos fazer”.
Lendo “O Barão” de Sttau Monteiro, num pequeno excerto do texto original (1964: 98-104):
“Surge
gradualmente iluminado o quarto do Inspector, bem delimitado no palco
pelo recorte da luz. O Inspector está envolto por uma espessa fumarada,
tentando olhar à sua volta.
E se tiver sido fogo posto – oiçam bem o que digo! – se tiver sido fogo posto, nem a alma se lhe aproveita!
O Inspector levanta-se e percorre o quarto, cambaleando, a gritar por socorro.
O INSPECTOR
– Socorro! Socorro!
UM DOS COMPONENTES DA TUNA
Gritando do fundo do palco.
– Aqui não há nada! Nem cheira a fumo!
O BARÃO
– Calem-se, que oiço gritar!
O INSPECTOR
– Salvem-me que eu morro! Socorro!
UM DOS COMPONENTES DA TUNA
– Está alguém a gritar!
O BARÃO
– Calem-se!
Todos
estacam para descobrir a origem dos gritos e ouvem o Inspector, que
agarrado à cama, bate com os pés no chão, gritando com desespero.
O INSPECTOR
– Socorro! Salvem-me! Se não me acodem, morro!
O BARÃO
– É ele!
Correm
todos para junto do Inspector e detêm-se ao chegar à zona delimitada
pela luz. Idalina surge da esquerda, a correr, afasta o Barão num gesto
violento, e grita:
IDALINA
– Saia daí! Deixe o homem dormir!
Vê
o Inspector, corre para a cama, e começa a bater com a almofada nos
lençóis, para apagar o fogo, enquanto o Barão se ri a bandeiras
despregadas.
O BARÃO
– Ias morrendo assado! É a primeira vez que vejo um Inspector do ensino primário assado no espeto!
Ri.
Anda daí, homem, vamos lá para dentro que os inspectores querem-se mal passados...
Ri.
Amparando
o Inspector e seguido pelos três componentes da Tuna, o Barão dirige-se
para a esquerda baixa, rindo e falando pelo caminho, enquanto a luz que
incidia sobre o quarto do inspector desaparece gradualmente. Idalina
sai pela direita.
Parecia que vinhas do inferno! Vamos festejar o teu regresso à terra com champagne e com os melhores vinhos que eu tiver nas minhas caves!
Para os componentes da Tuna:
Chamem
os outros! Digam à Idalina que traga os melhores vinhos que houver cá
em casa! Acordem os criados e mandem acender todas as luzes que houver! O
Barão, hoje, festeja o regresso dum amigo que foi ao inferno e voltou
para contar o que viu!
Os componentes da Tuna desapareceram a correr pelo fundo.
Sempre estou para ver se o inferno donde tu vens, é pior do que aquele em que vivo!
Largando a rir outra vez.
Ah homem! Se tu visses a tua cara!
Agarram-se um ao outro a rir e a falar ao mesmo tempo.
O INSPECTOR
–
Julguei que me tinhas abandonado... Que me tinhas deixado no meio da
quinta... para ires sozinho... ao castelo da Bela Adormecida!
O BARÃO
Começando a falar quando o Inspector diz «para ires sozinho».
– Eu? Tens muito a aprender, amigo! Se há coisa que um homem não pode fazer, é abandonar um irmão...
O INSPECTOR
Interrompendo e abraçando o Barão, muito comovido e ainda ébrio.
– Meu irmão...
O BARÃO
Continuando como se não tivesse sido interrompido.
– ... Haja o que houver, aconteça o que acontecer! Faz parte do código dos barões...
Ri-se.
Sabes o que é o código dos barões? É um código antigo...
Muito grave.
… tão antigo e tão inútil como os barões, mas que apesar disso, tem de ser obedecido até ao fim...
O INSPECTOR
– Meu irmão!
O BARÃO
Falando sozinho...
Quando
o Outono cai sobre a floresta... é possível a uma árvore, sozinha e
isolada, continuar em flor como se estivesse na Primavera... mas perde a
batalha... Faça o que fizer, perde a batalha... O Outono, por mais
forte que seja a árvore, acaba por conquistar a floresta inteira... E a
árvore sabe-o, como o sabe o vento, como o sabe a terra, como o sabe a
chuva que lhe fustiga os ramos... Resta-lhe conservar, até ao fim, até
ao último momento...
Com intensidade crescente.
… até que lhe caiam as folhas douradas e vermelhas... as cores da Primavera!
Pausa. Para o Inspector.
Percebes, agora, o que é o código dos barões?
O INSPECTOR
– Meu irmão...
O BARÃO
Áspero.
– Cala-te: o que é Outono para uns, é Primavera para outros!”


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