23 abril, 2026

DIA MUNDIAL DO LIVRO 2026 O BARÃO, uma peça de teatro de Luís de Sttau Monteiro. 1964.

 


DIA MUNDIAL DO LIVRO 2026
O BARÃO, uma peça de teatro de Luís de Sttau Monteiro. 1964.
A Sociedade Martins Sarmento assinala o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor, destacando da sua Biblioteca o livro “O Barão”, peça de teatro de Luís Sttau Monteiro, que integra o Fundo de Teatro de Joaquim António dos Santos Simões. Neste livro, o autor português “verteu” para a linguagem teatral a narrativa homónima de Branquinho da Fonseca, editada em 1942.
A adaptação de “O Barão”, pelo olhar do escritor Sttau Monteiro, apresenta a narrativa original de um episódio, um acontecimento especial, que decorre durante uma noite, em que a personagem O Inspector (das Escolas de Instrução Primária), deslocando-se em trabalho a uma aldeia da serra do Barroso, cruza-se com várias outras personagens do enredo (O Barão, Idalina, A Bela Adormecida, A Professora, O Pai do Barão, O Mestre Alçada, Os Componentes da Tuna e os Figurantes) com especial destaque para a figura do Barão. Esta personagem, nas palavras de David Mourão Ferreira (1998), é “um ser que nos perturba, e revolta, e comove, com os seus defeitos e as suas qualidades, as suas obsessões, os seus sonhos, a sua índole pessoal e intransmissível”. A construção dramatúrgica de Sttau Monteiro recorre a elementos que reforçam os posicionamentos do escritor, as indicações cénicas traduzem o ambiente e a personalidade das personagens e dos momentos da ação. Nestas indicações, convoca o leitor a reler a situação político-social do país, um momento em que as manifestações artísticas estavam sujeitas ao “parecer” do lápis azul (a censura).
A intensa dramaticidade da obra de Branquinho da Fonseca (1905-1974) atraiu Sttau Monteiro, que adaptou o texto original para uma peça de teatro, continuando a dar vida à enigmática personagem de O Barão. Na década de 40, a produtora Valerie Lewton demonstrou interesse na história do livro de Branquinho, tendo mesmo iniciado algumas filmagens, mas o projeto foi proibido pela censura. Em 2011 foi estreada uma refilmagem do trabalho original, pelo realizador Edgar Pêra, a partir de duas bobines e do argumento, encontrados anos antes.
Luís de Sttau Monteiro nasceu em 1926 e faleceu em 1993. Licenciou-se em Direito, pela Universidade de Lisboa, mas notabilizou-se no campo da literatura, sendo considerado pelos críticos de literatura como uma figura incontornável do século XX português. Luís de Sttau Monteiro foi um escritor multifacetado. Destacou-se como dramaturgo, tendo escrito várias peças e adaptações teatrais, elaborou textos no domínio do romance, da crónica e do jornalismo. Foi colaborador em diversas publicações periódicas, tradutor e, juntamente com Alexandre O' Neil, escreveu os diálogos para o filme “Pássaros de asas cortadas”, de Artur Ramos”. Alguns dos seus textos foram sendo revisitados, como é exemplo o romance “Angústia para o jantar”, que foi adaptado para uma série de televisão, pela RTP, tendo tido grande sucesso (em 1975).
Crítico da política do Estado Novo, o escritor foi preso pela PIDE e alguns dos seus textos foram censurados, como é exemplo a premiada peça para teatro, “Felizmente há Luar!”, que só pôde ser representada depois do 25 de Abril.
Luís de Sttau Monteiro denota na sua obra as suas convicções, o seu pensamento social, assumindo-se um defensor da liberdade, da igualdade e da justiça social. No romance “Angústia para o jantar” (1961) apresenta uma crítica aos comportamentos da burguesia, em “Felizmente à Luar!” (1961) e “O Barão”, entre outros títulos, denuncia a situação político-social portuguesa da época.
Volvidos 100 anos sobre o nascimento de Sttau Monteiro, lembramos o escritor e a sua obra, através do convite à leitura da peça “O Barão”, concretizando o que o escritor, em 1971, registou numa das suas peças para teatro: “Mesmo que outro tempo não venha no nosso tempo, ficam as peças a atestar que fizemos o que devíamos e podíamos fazer”.

Lendo “O Barão” de Sttau Monteiro, num pequeno excerto do texto original (1964: 98-104):
“Surge gradualmente iluminado o quarto do Inspector, bem delimitado no palco pelo recorte da luz. O Inspector está envolto por uma espessa fumarada, tentando olhar à sua volta.

E se tiver sido fogo posto – oiçam bem o que digo! – se tiver sido fogo posto, nem a alma se lhe aproveita!

O Inspector levanta-se e percorre o quarto, cambaleando, a gritar por socorro.

O INSPECTOR
– Socorro! Socorro!
UM DOS COMPONENTES DA TUNA
Gritando do fundo do palco.

– Aqui não há nada! Nem cheira a fumo!

O BARÃO
– Calem-se, que oiço gritar!
O INSPECTOR
– Salvem-me que eu morro! Socorro!
UM DOS COMPONENTES DA TUNA
– Está alguém a gritar!
O BARÃO
– Calem-se!

Todos estacam para descobrir a origem dos gritos e ouvem o Inspector, que agarrado à cama, bate com os pés no chão, gritando com desespero.
O INSPECTOR
– Socorro! Salvem-me! Se não me acodem, morro!
O BARÃO
– É ele!

Correm todos para junto do Inspector e detêm-se ao chegar à zona delimitada pela luz. Idalina surge da esquerda, a correr, afasta o Barão num gesto violento, e grita:
IDALINA
– Saia daí! Deixe o homem dormir!

Vê o Inspector, corre para a cama, e começa a bater com a almofada nos lençóis, para apagar o fogo, enquanto o Barão se ri a bandeiras despregadas.
O BARÃO
– Ias morrendo assado! É a primeira vez que vejo um Inspector do ensino primário assado no espeto!
Ri.
Anda daí, homem, vamos lá para dentro que os inspectores querem-se mal passados...
Ri.
Amparando o Inspector e seguido pelos três componentes da Tuna, o Barão dirige-se para a esquerda baixa, rindo e falando pelo caminho, enquanto a luz que incidia sobre o quarto do inspector desaparece gradualmente. Idalina sai pela direita.
Parecia que vinhas do inferno! Vamos festejar o teu regresso à terra com champagne e com os melhores vinhos que eu tiver nas minhas caves!

Para os componentes da Tuna:
Chamem os outros! Digam à Idalina que traga os melhores vinhos que houver cá em casa! Acordem os criados e mandem acender todas as luzes que houver! O Barão, hoje, festeja o regresso dum amigo que foi ao inferno e voltou para contar o que viu!

Os componentes da Tuna desapareceram a correr pelo fundo.

Sempre estou para ver se o inferno donde tu vens, é pior do que aquele em que vivo!

Largando a rir outra vez.

Ah homem! Se tu visses a tua cara!

Agarram-se um ao outro a rir e a falar ao mesmo tempo.

O INSPECTOR
– Julguei que me tinhas abandonado... Que me tinhas deixado no meio da quinta... para ires sozinho... ao castelo da Bela Adormecida!

O BARÃO
Começando a falar quando o Inspector diz «para ires sozinho».


– Eu? Tens muito a aprender, amigo! Se há coisa que um homem não pode fazer, é abandonar um irmão...

O INSPECTOR
Interrompendo e abraçando o Barão, muito comovido e ainda ébrio.

– Meu irmão...
O BARÃO

Continuando como se não tivesse sido interrompido.

– ... Haja o que houver, aconteça o que acontecer! Faz parte do código dos barões...

Ri-se.

Sabes o que é o código dos barões? É um código antigo...

Muito grave.

… tão antigo e tão inútil como os barões, mas que apesar disso, tem de ser obedecido até ao fim...

O INSPECTOR
– Meu irmão!
O BARÃO
Falando sozinho...


Quando o Outono cai sobre a floresta... é possível a uma árvore, sozinha e isolada, continuar em flor como se estivesse na Primavera... mas perde a batalha... Faça o que fizer, perde a batalha... O Outono, por mais forte que seja a árvore, acaba por conquistar a floresta inteira... E a árvore sabe-o, como o sabe o vento, como o sabe a terra, como o sabe a chuva que lhe fustiga os ramos... Resta-lhe conservar, até ao fim, até ao último momento...

Com intensidade crescente.

… até que lhe caiam as folhas douradas e vermelhas... as cores da Primavera!

Pausa. Para o Inspector.

Percebes, agora, o que é o código dos barões?
O INSPECTOR
– Meu irmão...
O BARÃO
Áspero.

– Cala-te: o que é Outono para uns, é Primavera para outros!”


publicado por SMS às 17:09

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