Um Mês, Uma Peça 1 a 30 de junho de 2026
Super Categoria Arqueologia
Categoria Vidro
Nº Inventário MSA-2499
Denominação Taça romana em vidro, da Citânia de Briteiros
Cronologia Finais do século I / século II d. C.
Fabrico/ Marca Oficinas locais/regionais
Técnica Moldagem ao torno
Matéria Vidro
Dimensões Diâm. máx.: 114mm. Alt.: 50 mm. Esp. bordo: 4 mm
Incorporação Coleção de Francisco Martins Sarmento (descoberta em 1877).
Descrição e origem/historial:
A peça que destacamos é uma taça canelada, translúcida, de cor verde diluído, cujos fragmentos permitiram reconstituir a forma original do objeto. O seu fabrico, através de moldagem a torno, com execução dos gomos recorrendo a pinças ou tenazes, será datável entre a época flávia (último terço do século I d. C.) e o século II da nossa Era. O vidro em bruto seria sempre importado do Próximo Oriente, mas os objetos finais seriam fabricados em oficinas vidreiras locais. Este trabalho seria altamente qualificado e estas oficinas existiriam somente em cidades. Esta taça, recolhida na Citânia de Briteiros, em 1877, foi provavelmente fabricada numa oficina vidreira de Bracara.
É das peças de vidro, recolhidas na região, mais interessantes que se guardam no Museu Martins Sarmento, não se tendo encontrado na Citânia nenhuma outra taça canelada em vidro, nas condições de conservação desta.
Sobre esta tipologia de taças, diz-nos Mário Cruz:
"Esta é a forma “internacional” Alto-Imperial por excelência.(...) Relativamente aos exemplares em vidro verde azulado(...), terá existido certamente uma produção peninsular, nomeadamente no Noroeste. Estas taças são de tal forma abundantes e possuem uma tal variação nos tamanhos, formas e decoração que só a existência de várias oficinas regionais poderia explicar tal facto. Essas oficinas começaram logicamente por se instalar nos acampamentos militares e nas principais cidades. Existem evidências arqueológicas e arqueométricas que nos permitem falar de produções em Asturica Augusta, Bracara Augusta e Lucus Augusti." (Cruz, 2009a, vol. II: 21).
A peça foi recolhida num dos compartimentos do edifício que mais tarde se batizou como "Casa de Avscvs", após a recolha, em 2009, de um elemento epigrafado com este nome. No entanto, muito antes das escavações realizadas pontualmente entre 2008 e 2014, neste espaço doméstico da acrópole da Citânia, as primeiras explorações foram realizadas em 1877, no decurso da escavação das ruas que delimitam o quarteirão onde se encontra em casa:
"...mandei explorar (já tinha sido principiada a ser escavada á tôa, dando muito caco) uma casa quadrada(...) n'um taboleiro superior.
Esta casa deu cacaria immensa:(...) fragmentos de vidro com os quaes se pode restaurar uma taça de vidro (quasi toda), que me diz a fórma das azelhas apparecidas n'outras partes. Um copo que também é possível restaurar com muito trabalho." (Sarmento, 1905: 9).
Os trabalhos arqueológicos realizados neste local, já no século XXI, revelaram que a construção desta casa será datável dos finais do século I a. C., com uma ocupação permanente até ao século II d. C. (Cruz e Antunes, 2017-18), portanto coerente com a datação da taça canelada ali recolhida por Sarmento. Seria habitada por uma família indígena, em processo de mudança cultural no contexto da romanização. A recolha deste objeto não nos indica apenas que os proprietários desta casa procuravam adquirir itens exóticos e visualmente mais apelativos que as escuras taças cerâmicas castrejas, mas também que eles já tinham alterado os seus hábitos, incluindo os produtos consumidos e a forma como eram apresentados. Além das razões de ordem estética, o recurso ao vasilhame de vidro, insípido e inodoro, preserva o sabor dos alimentos, o que terá certamente contribuído para a popularização deste material.
Esta taça da Citânia de Briteiros é idêntica, quanto à sua morfologia e cronologia, à taça canelada intacta proveniente de Almeirim, de cor azul cobalto, que integra também a coleção do Museu Martins Sarmento e é parte do espólio de uma sepultura romana identificada naquele Concelho ribatejano.
Bibliografia
- Alarcão, Jorge e Alarcão, Adília (1963): Vidros romanos do Museu de "Martins Sarmento". Revista de Guimarães, vol. 73 (1-2), pp. 175-209. [cf. p. 188].
- Cruz, Mário (2009a): O Vidro Romano no Noroeste Peninsular. Um olhar a partir de Bracara Augusta. Dissertação de Doutoramento, Universidade do Minho. [cf. vol. 2, pp. 19-22].
- Cruz, Mário (2009b): Vita Vitri. O vidro antigo em Portugal. Silva, Isabel e Raposo, Luís (coords.). Ministério da Cultura/IMC. [cf. pp. 28-30].
- Cruz, Gonçalo e Antunes, José (2017-2018): Intervenção arqueológica de 2014 na Citânia de Briteiros (Guimarães). Alguns dados e problemáticas sobre o urbanismo dos oppida.InMartinéz Peñín, Raquel (coord.), Estudos Humanísticos. História, vol. 16, pp. 33-54.
- Guimarães, Francisco José Salgado (1980): Museu Martins Sarmento. Secção de Indústrias Pré e Proto-históricas. Guia descritivo. Sociedade Martins Sarmento [cf. p. 12].
- Sarmento, Francisco (1905): Materiaes para a Archeologia do Concelho de Guimarães. Citânia. Revista de Guimarães, vol. 22 (1-2), pp. 5-32. [cf. p. 9].

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