UM MÊS, UMA PEÇA maio de 2026 - PRIMAVERA, Coleção de Etnografia Sociedade Martins Sarmento
PRIMAVERA, na Coleção de Etnografia da Sociedade Martins Sarmento
No âmbito do programa UM MÊS, UMA PEÇA, a Sociedade Martins Sarmento evidencia, no mês de maio, a figuração denominada PRIMAVERA, em cerâmica do tipo Estremoz, integrada na Coleção de Etnografia. Esta representação antropomórfica, em cerâmica vidrada e policromada, foi doada à Sociedade Martins Sarmento, em 1971, por D. Margarida Ribeiro, juntamente com outras figurações cerâmicas produzidas nas oficinas tradicionais de Estremoz. Esta manifestação artística portuguesa, do denominado Figurado em barro de Estremoz, foi reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. A estética do figurado caracteriza-se, principalmente, pelo processo de modelação manual e pela policromia vibrante, resultante da pintura das imagens, cuja indumentária que exibem segue o padrão típico regional alentejano. As criações deste típico figurado refletem o imaginário devocional e profano da região, espelhando traços da sua própria identidade coletiva. Os famosos barristas de Estremoz modelam figuras religiosas, composições que espelham cenas da vida quotidiana e do trabalho, manifestações festivas tradicionais. Neste domínio inscreve-se a figura genericamente denominada de Primavera, associada segundo alguns investigadores a representações festivas, no caso com o Entrudo (Carnaval), que anunciam a chegada da Primavera, momento em que a natureza, especialmente, a flora, renasce. Apontam, também, que a designação genérica retrata as figurações nomeadas de “Primavera de arco”, “Primavera de plumas” e as “Bailadeiras”. A figuração pertencente ao acervo da Sociedade Martins Sarmento apresenta semelhanças com exemplares existentes no Museu Rural de Estremoz, sendo aí identificadas por “Bailadeiras”. Estas imagens “alegóricas” remetem-nos para a celebração do desabrochar da natureza, estando também ligadas ao conceito de fertilidade.
A PRIMAVERA, do acervo da Sociedade Martins Sarmento, em barro policromado e envernizado, assenta sobre uma base circular pintada em verde, exibindo decoração incisa. Calça sapatos de cor preta e nas pernas tem calças brancas. Apresenta um vestido rodado de cor azul, com duas linhas de folhos de cor laranja, na extremidade inferior, e mangas do tipo ¾. Nos membros superiores, a veste é decorada com aplicações de cor laranja, no pescoço e peito, com linhas incisas; laço no pescoço, na região frontal, e um outro, de pontas pendentes, na cintura, na parte das costas. Os braços, arqueados para a frente, pendem sobre o vestido, tendo junto a cada uma das mãos uma flor, em forma de cornucópia, ambas pintadas em amarelo e decoradas com o mesmo padrão cromático a verde e laranja , nomeadamente na definição do pedúnculo, recetáculo e da flor. Os dedos das mãos surgem representados por incisão. No rosto, duas linhas horizontais e paralelas desenham as sobrancelhas, os olhos são pintados de preto, boca em vermelho, rosetas ocre e nariz em relevo de formato triangular. Na cabeça, para além do cabelo pintado em castanho, exibe um toucado, formado por cinco destaques em forma de pétalas, pintados em azul, amarelos laranja, amarelo e azul (da esquerda para a direita) e decoradas com três linhas paralelas, de cor laranja, azul, branca, azul e laranja (da esquerda para a direita). Ainda na cabeça, surgem aplicados dois destaques cilíndricos pintados em amarelo.
Datação atribuída: Século XX; Trabalho de olaria sem marca de produção; Modelação e pintura manual. Cozedura; Dimensões – 173x83cm.
A representação da PRIMAVERA, antes de ser doada à Sociedade Martins Sarmento, integrava a coleção particular de D. Margarida Ribeiro, associada da Instituição (desde 1967, por proposta do então Presidente da Direção, o Coronel Mário Cardozo), sócia correspondente, a partir de 1970, e colaboradora da “Revista de Guimarães”, tendo também realizado doações de vários objetos de natureza etnográfica à Sociedade Martins Sarmento, que muito contribuíram para o enriquecimento e valorização do acervo da Instituição. D. Margarida Ribeiro (1911-2001) foi professora, investigadora no domínio da história e etnografia, tendo profissionalmente integrado as áreas de etnografia no Serviço Nacional de Informação e Turismo, na Secretaria de Estado da Informação, Cultura Popular e Turismo e na Direção Geral do Património Cultural da Secretaria de Estado da Cultura. No domínio da produção literária e científica, desenvolveu estudos sobre educação e a mulher, a história e a etnografia, assim como escreveu poesia.
Lembramos a estação da Primavera, numa poesia de Sophia de Mello Breyner:
PRIMAVERA
As heras de outras eras água pedra
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e Primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra das folhagens nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
– Sangue feroz do tempo possuído
Sophia de Mello Breyner Andresen, 2014
Obras de Margarida Ribeiro:
https://catalogo.csarmento.uminho.pt/cgi-bin/koha/opac-search.pl?idx=au%2Cphr&q=Margarida%20Ribeiro&offset=40&sort_by=relevance&count=20


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