UM MÊS, UMA PEÇA | Setembro | Fragmento cerâmico com mascarão
Super Categoria Arqueologia
Categoria Cerâmica
Nº Inventário MSA-2503 (Brit.2003/266)
Denominação Fragmento cerâmico com mascarão, da Citânia de Briteiros
Cronologia 50-120 d. C.
Fabrico/ Marca Cerâmica de produção Bracarense
Técnica Pote modulado a torno. Decoração da pança com guilhoché. Mascarão aplicado
Matéria Cerâmica
Dimensões Diâmetro: 206mm (peça original)
Incorporação Escavações de 1943 (José de Pina)
Descrição e origem/historial:
O fragmento cerâmico, que se destaca por conservar um vistoso mascarão, é um fragmento de um pote, recolhido em 1943, na campanha de escavações dirigida por José de Pina, na Citânia de Briteiros. Sobre este mascarão escreveu Mário Cardozo: "É um rosto glabro, expressivo e risonho, com os cabelos dispostos sobre a testa, em anéis simetricamente estilizados. O modelado desta pequena escultura artística é perfeitíssimo! Nenhum dos actuais obreiros da nossa indústria popular de olaria era capaz de esculpir uma máscara semelhante. Apesar das suas diminutas proporções, o rosto, trabalhado sem mesquinhez no detalhe, revela uma expressão de vida surpreendente!" (Cardozo, 1943, pp. 250-251). A peça foi, desde logo, comparada aos fragmentos de outro pote, recolhido em São Torcato, em 1909, que mostra também um mascarão cerâmico e que se insere na mesma tipologia de produção.
As cerâmicas romanas alto-imperiais, conhecidas como "produção Bracarense", começaram a ser diferenciadas pelos investigadores a partir da década de 1960 (Alarcão e Martins, 1976). São louças finas que se caracterizam por "uma pasta muito depurada de cor creme claro e superfície sempre revestida por um engobe de cor pouco homogénea, variando entre o amarelado, mais frequente, e tonalidades laranja-acastanhadas e salmão, por vezes ligeiramente metalizado, com manchas negras frequentes." (Morais, 2009, p. 25). A maior parte dos objetos integráveis neste tipo de produção imitam formas, ou de cerâmicas de paredes finas de Mérida, ou de sigillata hispânica, portanto louças finas de mesa, embora também se conheçam exemplares de louças de uso comum.
Concluiu-se, no entanto, tratar-se de uma produção local/regional – o que está na origem da sua designação – desde logo pelo recurso a argilas cauliníticas existentes no norte do país (Morais, 2004, vol. I, p. 319).
O paralelismo das formas com as peças de paredes finas da região emeritense, levou os investigadores a considerar a possibilidade de fixação, na região de Bracara Augusta, de oleiros provenientes da zona de Mérida (Alarcão e Martins, 1976, p. 94-95) ou da Bética (Morais, 2004, vol. I, p. 320).
O pote que integrava este mascarão, uma peça fina de mesa, utilizada para servir e verter líquidos (Germán, 1996, p. 149), é precisamente uma imitação de uma forma característica das louças de paredes finas de Mérida, a forma L (50) estabelecida por Françoise Mayet (1975). Teria, do lado oposto ao mascarão, um bico vertedoiro e duas pegadeiras laterais presas no colo da peça (Morais, 2004, vol. II, p. 294). A sua sofisticação demonstra o poder aquisitivo da família que a terá utilizado, na fase Alto-Imperial de ocupação da Citânia de Briteiros.
Bibliografia
- Alarcão, Adília e Martins, Alina (1976): Uma cerâmica aparentada com as ‘paredes finas’ de Mérida. Conímbriga, vol. XV, Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra, pp. 91-110.
- Cardozo, Mário (1943): Escavações na Citânia de Briteiros. Revista de Guimarães, vol. 53 (3-4), pp. 247-256.
- Germán Rodríguez Martín, Francisco (1996): La cerámica de "paredes finas" en los talleres emeritenses. Mélanges de la Casa de Velázquez, tome 32-1, pp. 139-179.
- Mayet, Françoise (1975): Les céramiques à parois fines dans la Péninsule Ibérique. Paris : Éditions de Boccard.
- Morais, Rui (2004): Autarcia e Comércio em Bracara Augusta no período Alto-Imperial: contribuição para o estudo económico da cidade. Dissertação de Doutoramento, Universidade do Minho.
- Morais, Rui (2009): Guia das cerâmicas de produção local de Bracara Augusta. CITCEM.



