Um Mês, Uma Peça - UM LIVRO RARO, um dos mais antigos da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento
UM LIVRO RARO, um dos mais antigos da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento
Horatii Flacci lyrici poetae opera. Cum quatuor comentariis: & figuris nup additis. commentariis Acronis, Porphyrionis, Landini et Mancinelli. Venetiae: Doninum Pincium, 1505.
Livro em latim, que apresenta a obra - “Opera” - de Quinto Horácio Flaco, autor habitualmente referenciado apenas por Horácio. Foi um apreciado escritor e filósofo, considerado, ainda hoje, o maior poeta da literatura latina. Nasceu em 65 a.C., em Venúsia, atualmente região da Itália, e faleceu em 8 a.C., em Roma, tendo até à sua morte produzido composições poéticas.
“(…) os intelectos mais educados na compostura clássica e mais abertos às vozes da sabedoria antiga, consideram-no ainda o autor predileto; de nenhum poeta latino, como de Horácio, tantos versos foram elevados à notoriedade e à difusão do provérbio. Embora o seu fascínio emane, muitas vezes, mais do conteúdo moral da sua obra do que das suas qualidades artísticas, e suscite mais uma ressonância humana do que uma verdadeira emoção estética, no entanto, ele permanece, até ao presente, para muitíssimas almas, o mais seguro mestre de vida, a quem se volta com assídua simpatia, até em razão da sugestão contida nos seus versos sóbrios e densos de conceitos” (Ettore Paratore, 1987).
O livro de Horácio, existente na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, reúne os trabalhos que constituem as designadas “Odes”, “Epodos”, “Carmen saeculare”, “Arte poética”, “Sátiras” e “Epístolas”, seguidos dos comentários de quatro estudiosos clássicos – Pseudo-Acro, Pomponius Porphyrio, Christophorus Landinus e Antonius Mancinellus.
Muito sumariamente, e segundo alguns investigadores horacianos, é nos “Epodos” que o escritor dá a conhecer o seu talento literário. Nestes textos, Horácio faz a crítica social e política do seu tempo, assim como refere a ternura e a serenidade que o dia-a-dia no campo proporciona. Nas “Odes”, destaca-se a especial feição poética (linguagem e técnica) do autor. Organizadas em quatro livros, Horácio versa sobre os homens da política, e suas respetivas conquistas, glorifica os deuses, elogia os seus amigos, recorda lugares que lhe despertaram interesse e alimentaram a sua criatividade literária. Nas “Sátiras”, escritos organizados em dois livros, o escritor perpassa vários aspetos da sociedade do seu tempo e da sua própria vida. Temas como gastronomia e literatura, perspetivas literárias, morais e filosóficas, observações sobre o quotidiano e as figuras que o povoam, são, em variados momentos, interpolados com pormenores da experiência pessoal de Horácio. É neste último aspeto que alguns investigadores particularizam o escritor latino, considerando o autor que, na sua obra, mais elementos autobiográficos oferece aos leitores. Em “Carmen saeculare”, hino escrito a pedido de Augusto e dedicado a Apolo e Diana, Horácio constrói um texto de louvor a Roma e faz destacar o alcance administrativo do imperador Augusto. Nas “Epístolas”, o escritor reflete sobre o lugar e a função do poeta e da poesia na sociedade, sobre os seus conhecimentos sobre o estilo poético e sobre as suas composições literários. É neste grupo de escritos que se inscreve, uma das mais conhecidas produções literárias de Horácio, a “Arte poética” ou “Epístola aos Pisões”. É considerada, uma espécie de teoria da arte. O escritor debruça-se sobre os princípios da poesia, da construção poética e da formação do poeta, entre outros aspetos.
Os académicos que se têm dedicado aos estudos dos textos de Horácio, destacam as particularidades dos seus trabalhos – a construção poética e as ideias filosóficas que explora – e reconhecem a marcada influência que incutiu na cultura europeia. A “poesia desafiante, desde logo pela abstração sintética do latim em que foi composta” (Frederico Lourenço, 2023), influenciou destacadas figuras das letras. Em Portugal, a marca da escrita de Horácio é assinalada em Luís de Camões e Fernando Pessoa.
Rosado Fernandes (2012), referindo-se ao talento literário de Horácio, destacou que:
“A obra poética que nos deixou é o reflexo da sua personalidade equilibrada, sem ser demasiado satisfeita, do seu carácter ambicioso, sem que por isso fosse possuído por eterno descontentamento. Combinava um bom gosto muito seu, uma ironia prazenteira e um labor incansável, com os resultados da sua experiência poética, com a leitura da poesia grega e romana e com os conhecimentos teóricos que aprendera na escola de Orbílio, nas escolas de Atenas e nos estudos que fez pela vida fora. Desta sorte, a sua obra – em que a τέχνη (ars) grega se combina admiravelmente com o ltalum focetum e com a ironia que ao poeta era peculiar –, ainda que apresente certa diversidade, não deixa de estar unida interiormente pelo seu equilíbrio e bom senso estético”.
O professor Frederico Lourenço (2023) lembra, ainda, que expressões como carpe diem, “juntar o útil ao agradável”, in medias res e “elefante branco”, saíram da obra do escritor latino.
O livro da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento pertenceu a António Alentor, e integra o Fundo de Livro Antigo, nomeadamente o classificado como livro raro. Esta edição dos textos horacianos, antecedidos por uma “carta-dedicatória” ao humanista italiano Julius Pomponius, possui uma observação sobre a obra e uma nota biográfica sobre o escritor romano, ambas da autoria do pedagogo Antonius Mancinellus. Apresenta, também, um poema do poeta e humanista italiano Domitius Palladius, assim como reune as considerações de quatro estudiosos latinos do séc. XV, cujas entradas são identificadas ao longo do texto. Exibe várias capitulares decoradas e possui mais de duas dezenas de ilustrações. Segundo alguns investigadores, os livros desta publicação de 1505, terão sido a primeira edição ilustrada a ser impressa em Itália. As imagens – xilogravuras – integradas na obra foram, algumas delas, elaboradas especialmente para esta edição; outras já tinham sido publicadas em obras anteriores, como na “Biblia vulgare istoriata” (1490) e no livro de Titus Livius, “Ab urbe condita” (1493).
O exemplar da Sociedade Martins Sarmento está incompleto, faltando a folha de rosto, as folhas 81, 113, 265, 266 e 3 folhas com o “Index” e “Registrum”. A encadernação é posterior à edição do livro, sendo constituída por pastas de cartão revestidas a couro; a lombada apresenta quatro nervos e cinco casas. Na segunda casa exibe um rótulo castanho com o nome do autor, gravado com ferros dourados. As restantes casas são decoradas a ouro, com motivos florais. Para a descrição bibliográfica foi tomado como referência o exemplar existente na biblioteca de Munique – Bayerische Staatsbibliothek –, cujo exemplar, acessível digitalmente, apresenta caraterísticas físicas e tipográficas semelhantes.
No âmbito do programa “Um mês, uma peça”, o livro de Horácio – Horatii Flacci lyrici poetae opera. Cum quatuor comentariis: & figuris nup additis – estará em exposição, na sede da Sociedade Martins Sarmento, durante o mês de fevereiro. Esta obra encontra-se descrita no Catálogo Digital da Biblioteca, podendo, também, ser consultada no Arquivo Digital.























