30 abril, 2026

UM MÊS, UMA PEÇA maio de 2026 - PRIMAVERA, Coleção de Etnografia Sociedade Martins Sarmento


PRIMAVERA, na Coleção de Etnografia da Sociedade Martins Sarmento 

No âmbito do programa UM MÊS, UMA PEÇA, a Sociedade Martins Sarmento evidencia, no mês de maio, a figuração denominada PRIMAVERA, em cerâmica do tipo Estremoz, integrada na Coleção de Etnografia. Esta representação antropomórfica, em cerâmica vidrada e policromada, foi doada à Sociedade Martins Sarmento, em 1971, por D. Margarida Ribeiro, juntamente com outras figurações cerâmicas produzidas nas oficinas tradicionais de Estremoz. Esta manifestação artística portuguesa, do denominado Figurado em barro de Estremoz, foi reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. A estética do figurado caracteriza-se, principalmente, pelo processo de modelação manual e pela policromia vibrante, resultante da pintura das imagens, cuja indumentária que exibem segue o padrão típico regional alentejano. As criações deste típico figurado refletem o imaginário devocional e profano da região, espelhando traços da sua própria identidade coletiva. Os famosos barristas de Estremoz modelam figuras religiosas, composições que espelham cenas da vida quotidiana e do trabalho, manifestações festivas tradicionais. Neste domínio inscreve-se a figura genericamente denominada de Primavera, associada segundo alguns investigadores a representações festivas, no caso com o Entrudo (Carnaval), que anunciam a chegada da Primavera, momento em que a natureza, especialmente, a flora, renasce. Apontam, também, que a designação genérica retrata as figurações nomeadas de “Primavera de arco”, “Primavera de plumas” e as “Bailadeiras”. A figuração pertencente ao acervo da Sociedade Martins Sarmento apresenta semelhanças com exemplares existentes no Museu Rural de Estremoz, sendo aí identificadas por “Bailadeiras”. Estas imagens “alegóricas” remetem-nos para a celebração do desabrochar da natureza, estando também ligadas ao conceito de fertilidade.

A PRIMAVERA, do acervo da Sociedade Martins Sarmento, em barro policromado e envernizado, assenta sobre uma base circular pintada em verde, exibindo decoração incisa. Calça sapatos de cor preta e nas pernas tem calças brancas. Apresenta um vestido rodado de cor azul, com duas linhas de folhos de cor laranja, na extremidade inferior, e mangas do tipo ¾. Nos membros superiores, a veste é decorada com aplicações de cor laranja, no pescoço e peito, com linhas incisas; laço no pescoço, na região frontal, e um outro, de pontas pendentes, na cintura, na parte das costas. Os braços, arqueados para a frente, pendem sobre o vestido, tendo junto a cada uma das mãos uma flor, em forma de cornucópia, ambas pintadas em amarelo e decoradas com o mesmo padrão cromático a ­ verde e laranja ­, nomeadamente na definição do pedúnculo, recetáculo e da flor. Os dedos das mãos surgem representados por incisão. No rosto, duas linhas horizontais e paralelas desenham as sobrancelhas, os olhos são pintados de preto, boca em vermelho, rosetas ocre e nariz em relevo de formato triangular. Na cabeça, para além do cabelo pintado em castanho, exibe um toucado, formado por cinco destaques em forma de pétalas, pintados em azul, amarelos laranja, amarelo e azul (da esquerda para a direita) e decoradas com três linhas paralelas, de cor laranja, azul, branca, azul e laranja (da esquerda para a direita). Ainda na cabeça, surgem aplicados dois destaques cilíndricos pintados em amarelo.

Datação atribuída: Século XX; Trabalho de olaria sem marca de produção; Modelação e pintura manual. Cozedura; Dimensões – 173x83cm.

A representação da PRIMAVERA, antes de ser doada à Sociedade Martins Sarmento, integrava a coleção particular de D. Margarida Ribeiro, associada da Instituição (desde 1967, por proposta do então Presidente da Direção, o Coronel Mário Cardozo), sócia correspondente, a partir de 1970, e colaboradora da “Revista de Guimarães”, tendo também realizado doações de vários ob⁠jetos de natureza etnográfica à Sociedade Martins Sarmento, que muito contribuíram para o enriquecimento e valorização do acervo da Instituição. D. Margarida Ribeiro (1911-2001) foi professora, investigadora no domínio da história e etnografia, tendo profissionalmente integrado as áreas de etnografia no Serviço Nacional de Informação e Turismo, na Secretaria de Estado da Informação, Cultura Popular e Turismo e na Direção Geral do Património Cultural da Secretaria de Estado da Cultura. No domínio da produção literária e científica, desenvolveu estudos sobre educação e a mulher, a história e a etnografia, assim como escreveu poesia.
Lembramos a estação da Primavera, numa poesia de Sophia de Mello Breyner:

PRIMAVERA

As heras de outras eras água pedra
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e Primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias
E a sombra das folhagens nas paredes
Descalço o passo sobre os musgos verdes
E a noite transparente e distraída
Com seu sabor de rosa densa e breve
Onde me lembro amor de ter morrido
– Sangue feroz do tempo possuído

Sophia de Mello Breyner Andresen, 2014

Obras de Margarida Ribeiro:

https://catalogo.csarmento.uminho.pt/cgi-bin/koha/opac-search.pl?idx=au%2Cphr&q=Margarida%20Ribeiro&offset=40&sort_by=relevance&count=20 

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23 abril, 2026

DIA MUNDIAL DO LIVRO 2026 O BARÃO, uma peça de teatro de Luís de Sttau Monteiro. 1964.

 


DIA MUNDIAL DO LIVRO 2026
O BARÃO, uma peça de teatro de Luís de Sttau Monteiro. 1964.
A Sociedade Martins Sarmento assinala o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor, destacando da sua Biblioteca o livro “O Barão”, peça de teatro de Luís Sttau Monteiro, que integra o Fundo de Teatro de Joaquim António dos Santos Simões. Neste livro, o autor português “verteu” para a linguagem teatral a narrativa homónima de Branquinho da Fonseca, editada em 1942.
A adaptação de “O Barão”, pelo olhar do escritor Sttau Monteiro, apresenta a narrativa original de um episódio, um acontecimento especial, que decorre durante uma noite, em que a personagem O Inspector (das Escolas de Instrução Primária), deslocando-se em trabalho a uma aldeia da serra do Barroso, cruza-se com várias outras personagens do enredo (O Barão, Idalina, A Bela Adormecida, A Professora, O Pai do Barão, O Mestre Alçada, Os Componentes da Tuna e os Figurantes) com especial destaque para a figura do Barão. Esta personagem, nas palavras de David Mourão Ferreira (1998), é “um ser que nos perturba, e revolta, e comove, com os seus defeitos e as suas qualidades, as suas obsessões, os seus sonhos, a sua índole pessoal e intransmissível”. A construção dramatúrgica de Sttau Monteiro recorre a elementos que reforçam os posicionamentos do escritor, as indicações cénicas traduzem o ambiente e a personalidade das personagens e dos momentos da ação. Nestas indicações, convoca o leitor a reler a situação político-social do país, um momento em que as manifestações artísticas estavam sujeitas ao “parecer” do lápis azul (a censura).
A intensa dramaticidade da obra de Branquinho da Fonseca (1905-1974) atraiu Sttau Monteiro, que adaptou o texto original para uma peça de teatro, continuando a dar vida à enigmática personagem de O Barão. Na década de 40, a produtora Valerie Lewton demonstrou interesse na história do livro de Branquinho, tendo mesmo iniciado algumas filmagens, mas o projeto foi proibido pela censura. Em 2011 foi estreada uma refilmagem do trabalho original, pelo realizador Edgar Pêra, a partir de duas bobines e do argumento, encontrados anos antes.
Luís de Sttau Monteiro nasceu em 1926 e faleceu em 1993. Licenciou-se em Direito, pela Universidade de Lisboa, mas notabilizou-se no campo da literatura, sendo considerado pelos críticos de literatura como uma figura incontornável do século XX português. Luís de Sttau Monteiro foi um escritor multifacetado. Destacou-se como dramaturgo, tendo escrito várias peças e adaptações teatrais, elaborou textos no domínio do romance, da crónica e do jornalismo. Foi colaborador em diversas publicações periódicas, tradutor e, juntamente com Alexandre O' Neil, escreveu os diálogos para o filme “Pássaros de asas cortadas”, de Artur Ramos”. Alguns dos seus textos foram sendo revisitados, como é exemplo o romance “Angústia para o jantar”, que foi adaptado para uma série de televisão, pela RTP, tendo tido grande sucesso (em 1975).
Crítico da política do Estado Novo, o escritor foi preso pela PIDE e alguns dos seus textos foram censurados, como é exemplo a premiada peça para teatro, “Felizmente há Luar!”, que só pôde ser representada depois do 25 de Abril.
Luís de Sttau Monteiro denota na sua obra as suas convicções, o seu pensamento social, assumindo-se um defensor da liberdade, da igualdade e da justiça social. No romance “Angústia para o jantar” (1961) apresenta uma crítica aos comportamentos da burguesia, em “Felizmente à Luar!” (1961) e “O Barão”, entre outros títulos, denuncia a situação político-social portuguesa da época.
Volvidos 100 anos sobre o nascimento de Sttau Monteiro, lembramos o escritor e a sua obra, através do convite à leitura da peça “O Barão”, concretizando o que o escritor, em 1971, registou numa das suas peças para teatro: “Mesmo que outro tempo não venha no nosso tempo, ficam as peças a atestar que fizemos o que devíamos e podíamos fazer”.

Lendo “O Barão” de Sttau Monteiro, num pequeno excerto do texto original (1964: 98-104):
“Surge gradualmente iluminado o quarto do Inspector, bem delimitado no palco pelo recorte da luz. O Inspector está envolto por uma espessa fumarada, tentando olhar à sua volta.

E se tiver sido fogo posto – oiçam bem o que digo! – se tiver sido fogo posto, nem a alma se lhe aproveita!

O Inspector levanta-se e percorre o quarto, cambaleando, a gritar por socorro.

O INSPECTOR
– Socorro! Socorro!
UM DOS COMPONENTES DA TUNA
Gritando do fundo do palco.

– Aqui não há nada! Nem cheira a fumo!

O BARÃO
– Calem-se, que oiço gritar!
O INSPECTOR
– Salvem-me que eu morro! Socorro!
UM DOS COMPONENTES DA TUNA
– Está alguém a gritar!
O BARÃO
– Calem-se!

Todos estacam para descobrir a origem dos gritos e ouvem o Inspector, que agarrado à cama, bate com os pés no chão, gritando com desespero.
O INSPECTOR
– Socorro! Salvem-me! Se não me acodem, morro!
O BARÃO
– É ele!

Correm todos para junto do Inspector e detêm-se ao chegar à zona delimitada pela luz. Idalina surge da esquerda, a correr, afasta o Barão num gesto violento, e grita:
IDALINA
– Saia daí! Deixe o homem dormir!

Vê o Inspector, corre para a cama, e começa a bater com a almofada nos lençóis, para apagar o fogo, enquanto o Barão se ri a bandeiras despregadas.
O BARÃO
– Ias morrendo assado! É a primeira vez que vejo um Inspector do ensino primário assado no espeto!
Ri.
Anda daí, homem, vamos lá para dentro que os inspectores querem-se mal passados...
Ri.
Amparando o Inspector e seguido pelos três componentes da Tuna, o Barão dirige-se para a esquerda baixa, rindo e falando pelo caminho, enquanto a luz que incidia sobre o quarto do inspector desaparece gradualmente. Idalina sai pela direita.
Parecia que vinhas do inferno! Vamos festejar o teu regresso à terra com champagne e com os melhores vinhos que eu tiver nas minhas caves!

Para os componentes da Tuna:
Chamem os outros! Digam à Idalina que traga os melhores vinhos que houver cá em casa! Acordem os criados e mandem acender todas as luzes que houver! O Barão, hoje, festeja o regresso dum amigo que foi ao inferno e voltou para contar o que viu!

Os componentes da Tuna desapareceram a correr pelo fundo.

Sempre estou para ver se o inferno donde tu vens, é pior do que aquele em que vivo!

Largando a rir outra vez.

Ah homem! Se tu visses a tua cara!

Agarram-se um ao outro a rir e a falar ao mesmo tempo.

O INSPECTOR
– Julguei que me tinhas abandonado... Que me tinhas deixado no meio da quinta... para ires sozinho... ao castelo da Bela Adormecida!

O BARÃO
Começando a falar quando o Inspector diz «para ires sozinho».


– Eu? Tens muito a aprender, amigo! Se há coisa que um homem não pode fazer, é abandonar um irmão...

O INSPECTOR
Interrompendo e abraçando o Barão, muito comovido e ainda ébrio.

– Meu irmão...
O BARÃO

Continuando como se não tivesse sido interrompido.

– ... Haja o que houver, aconteça o que acontecer! Faz parte do código dos barões...

Ri-se.

Sabes o que é o código dos barões? É um código antigo...

Muito grave.

… tão antigo e tão inútil como os barões, mas que apesar disso, tem de ser obedecido até ao fim...

O INSPECTOR
– Meu irmão!
O BARÃO
Falando sozinho...


Quando o Outono cai sobre a floresta... é possível a uma árvore, sozinha e isolada, continuar em flor como se estivesse na Primavera... mas perde a batalha... Faça o que fizer, perde a batalha... O Outono, por mais forte que seja a árvore, acaba por conquistar a floresta inteira... E a árvore sabe-o, como o sabe o vento, como o sabe a terra, como o sabe a chuva que lhe fustiga os ramos... Resta-lhe conservar, até ao fim, até ao último momento...

Com intensidade crescente.

… até que lhe caiam as folhas douradas e vermelhas... as cores da Primavera!

Pausa. Para o Inspector.

Percebes, agora, o que é o código dos barões?
O INSPECTOR
– Meu irmão...
O BARÃO
Áspero.

– Cala-te: o que é Outono para uns, é Primavera para outros!”


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Nota de Pesar - Joaquim António Salgado Almeida



A Sociedade Martins Sarmento manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento do Professor Joaquim António Salgado Almeida, sócio n.º 75 desta Instituição, na qual tinha sido admitido em 1988, pela Direção então presidida pelo Dr. Manuel Bernardino de Araújo Abreu.

Professor e artista, Joaquim António Salgado de Almeida foi uma figura de referência na vida cultural e cívica da cidade, influenciando várias gerações através da sua atividade docente e do seu olhar singular sobre a identidade e o património vimaranense. Foi um sócio ativo da Sociedade Martins Sarmento, colaborando generosamente com várias publicações desta Instituição.

A Direção da Sociedade Martins Sarmento expressa homenagem e pesar pelo falecimento deste seu ilustre associado e apresenta a toda a sua Família sentidas condolências.

 

A Direção da SMS

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08 abril, 2026

Nota de Pesar - Professor Wladimir Brito

 



A Sociedade Martins Sarmento manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento do Professor Wladimir Augusto Correia Brito, sócio n.º 92 desta Instituição, na qual tinha sido admitido em 1990, pela Direção então presidida pelo Dr. Santos Simões.

 

Foi um ativo sócio da Sociedade Martins Sarmento, com uma presença assídua na Instituição. Atualmente, colaborava no programa de comemoração dos 50 anos da Constituição de 1976.

 

Jurista de notável projeção no espaço lusófono e figura incontornável do Direito Internacional Público em Portugal, doutorou-se em Direito na Universidade de Coimbra e foi Professor Catedrático na Escola de Direito da Universidade do Minho, onde recentemente foi homenageado pela sua carreira e pelo seu contributo para a afirmação da Escola de Direito. Foi o principal redator da Constituição de Cabo Verde em 1992 e desempenhou funções de referência em instituições académicas, científicas e internacionais, incluindo a lista de Conciliadores das Nações Unidas.

 

A Direção da Sociedade Martins Sarmento expressa homenagem e pesar pelo falecimento deste seu ilustre associado e apresenta a toda a sua Família sentidas condolências.

 

A Direção da SMS

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01 abril, 2026

UM MÊS, UMA PEÇA - 1 a 30 de abril de 2026 - Cristo na Cruz


 

 

UM MÊS, UMA PEÇA

Cristo na Cruz

Super Categoria Arte
Categoria Pintura
Nº Inventário ET-0090
Denominação Cristo na Cruz
Autor Desconhecido
Cronologia Séc. XVII-XVIII
Técnica Pintura a óleo sobre tela
Dimensões (cm) A. 110,6; L. 83,5
Incorporação Desconhece-se a proveniência e a data de entrada na coleção
do museu. 


Descrição 

Pintura a óleo sobre tela de formato retangular, representando o Calvário, tendo ao centro da composição Jesus Cristo pregado na cruz, à esquerda a Virgem Maria e à direita São João Evangelista, sobre um fundo de paisagem sombrio, sugerindo a escuridão que cobriu a terra durante a crucificação, conforme descrito nos Evangelhos.
A cabeça de Cristo, pende sobre o ombro esquerdo. Está desnudo, o torso magro com feridas visíveis, apenas portando um perizónio (cendal) branco esvoaçante envolvendo-Lhe as ancas. Apresenta-se de rosto barbado, cabelo longo, tendo na cabeça uma coroa de espinhos. As carnações são pálidas. No topo da cruz uma inscrição INRI (Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum, ou "Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus").  
À esquerda, a Virgem, de corpo inteiro, de pé, trajando túnica rosa, manto azul (símbolo de pureza e tristeza) e véu branco, tendo as mãos postas em oração, ergue o rosto olhando para Jesus Cristo.
À direita, São João Evangelista, o discípulo amado, de corpo inteiro, de pé e rosto imberbe, trajando uma túnica verde/castanho e manto vermelho. O corpo está ligeiramente torcido, olha para Cristo e com uma mão levantada num gesto de desespero ou súplica.
Aos pés da cruz encontra-se uma caveira e um osso. 

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Super Category Art
Category Painting
Inventory No. ET-0090
Title Christ on the Cross
Author Unknown
Chronology 17th-18th centuries
Technique Oil painting on canvas
Dimensions (cm) H. 110.6; W. 83.5
Acquisition The provenance and date of entry into the museum collection are
unknown. 


Description 


Oil painting on rectangular canvas, representing Calvary, with Jesus Christ nailed to the cross in the centre of the composition, the Virgin Mary to the left, and Saint John the Evangelist to the right, against a dark landscape background, suggesting the darkness that covered the earth during the crucifixion, as described in the Gospels.
Christ's head hangs over his left shoulder. He is naked, his torso thin with visible wounds, only wearing a flowing white loincloth (perizoma) around his hips. He has a bearded face, long hair, and a crown of thorns on his head. His complexion is pale. At the top of the cross is an inscription INRI (Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum, or "Jesus of Nazareth, King of the Jews").
To the left, the Virgin, full-length, standing, wearing a pink tunic, a blue mantle (symbol of purity and sorrow), and a white veil, with her hands clasped in prayer, raises her face looking at Jesus Christ. On the right, Saint John the Evangelist, the beloved disciple, full-length portrait, standing with a beardless face, wearing a green/brown tunic and a red cloak. His body is slightly twisted, he looks at Christ and with one hand raised in a gesture of despair or supplication. At the foot of the cross there is a skull and a bone. 

 


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31 março, 2026

Divulgação dos resultados - 5ª Edição "Guimarães: Expedição Fotográfica" | Prémio Fotografia Martins Sarmento

1º PRÉMIO
“Raio de Luz” (Bosque do Carvalhal, Guardizela) de Paulo Castro

2º PRÉMIO
“Equilibradores Ecológicos” (Creixomil) de Anabela da Silva Ramos

3º PRÉMIO
“Pastoreio de Betão” (Rua de Mouril, Silvares) de Filipe Salgado
 
MENÇÃO HONROSA
“Água, Passado e Legado” de Ana Rodrigues
 
 
PAULO CASTRO vence a 5ª edição "Guimarães: Expedição Fotográfica" | Prémio Fotografia Martins Sarmento 

Os finalistas desta edição do prémio são com o 1º prémio - “Raio de Luz” de Paulo Castro (Guardizela, Guimarães), 2º prémio - “Equilibradores Ecológicos” de Anabela da Silva Ramos (Guimarães) e 3º prémio - “Pastoreio de Betão” de Filipe Salgado (Guimarães), cujas obras inéditas estarão expostas de 18 de abril a 10 de maio na Galeria de Exposições da Sociedade Martins Sarmento, no âmbito do galardão. Recebe ainda a Menção Honrosa “Água, Passado e Legado” de Ana Rodrigues (Joane, Famalicão).
A 5ª edição do concurso de fotografia "Guimarães – Expedição fotográfica" é uma iniciativa da Sociedade Martins Sarmento em colaboração com o Cineclube de Guimarães – Secção de Fotografia e o Laboratório da Paisagem, contando com os apoios do Centro Português de Fotografia, Fotografia Portugal, Raiz Carisma e Dreambooks.
Os trabalhos foram avaliados por um júri constituído por Manuel Fernandes, diretor da Sociedade Martins Sarmento (SMS); Miguel Oliveira, fotógrafo e membro do Cineclube de Guimarães; Carlos Ribeiro, Diretor do Laboratório da Paisagem e Patrícia Aguiar, técnica superior da SMS.
O Prémio de Fotografia Martins Sarmento foi lançado em 2016 com o objetivo sobretudo de constituir um processo de recolha e atualização de espólio fotográfico, estimulando os fotógrafos a procurarem objetos e visões que a si próprios se identifiquem e que eles próprios identifiquem em Guimarães - todo o concelho.
Nesta 5ª edição a Sociedade Martins Sarmento associou-se ao desígnio da Capital Verde Europeia 2026, título atribuído a Guimarães pela Comissão Europeia, tendo o concurso fotográfico sido dedicado ao tema – ambiente – onde foi pedido aos participantes que procurassem perspetivas críticas sobre a natureza que nos rodeia. Eram bem-vindos registos fotográficos motivados pela transformação acelerada da paisagem, denunciando incoerências no usufruto do território, que urge resolver, sem menosprezar o registo dos modos pelos quais a natureza se insinua entre nós, adaptando-se às situações mais inesperadas, numa poética de coexistência. Participaram 32 candidatos com um total de 92 fotografias a concurso.
A cerimónia de entrega dos Prémios e diplomas de participação do Concurso de Fotografia “Guimarães: Expedição Fotográfica”, terá lugar no próximo dia 18 de abril, pelas 16h00, seguida da inauguração da exposição das fotografias dos trabalhos vencedores e de todos os participantes do concurso, a qual estará patente de 18 de abril a 10 de maio de 2026 na Galeria de Exposições da Sociedade Martins Sarmento, de terça a domingo das 10h00 às 12h30 e das 14h30 às 17h30.



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12 março, 2026

RAUL BRANDÃO NASCEU || 12 março


 

RAUL BRANDÃO NASCEU || 12 março

A Sociedade Martins Sarmento comemora mais um aniversário de Raul Brandão, nascido na Foz do Douro (Porto), a 12 de março de 1867. O escritor viveu em Lisboa e em Guimarães, na Casa do Alto, “o cantinho rústico”, onde escreveu uma parte significativa da sua obra literária.


Este ano revisitamos a obra “A morte do palhaço e o mistério da árvore”, editada em 1926. Segundo os investigadores brandonianos, este livro é uma espécie de reescrita/ refundição do livro da juventude, “História dum palhaço. (A vida e o diário de K. Maurício)”, que denota marcadas variações estilísticas e de estrutura. Como observa João Pedro de Andrade (1963), enquanto a primeira edição se caracterizava por uma escrita “instintiva, desalinhada, caótica”, na segunda edição o autor “Quis arranjar, compor, arrumar devidamente uma criação de delírio, e tirou a espontaneidade a um depoimento que surgira no momento próprio”.


Os escritos que compõem a obra foram sendo parcialmente publicados, entre 1894 e 1895, em vários periódicos da época, na “Revista d'hoje”, no “Correio da manhã” e na revista “O micróbio”, refletindo, como aponta Vitor Viçoso (2021), “o modo dispersivo como o autor exercia por esta época a sua atividade literária (…) dando a entender que Raul Brandão, para satisfazer as solicitações editoriais a que era sujeito, recorria aleatoriamente aos seus esboços visionários”.


A edição de 1926, com ilustrações de Martinho da Fonseca, está organizada em quatro partes, “K. Maurício”, “A morte do palhaço” (subdividida em “A casa de hóspedes”, “Halwain”, “Camélia”, “Sonho e realidade” e “Última farsa”), “Diário de K. Maurício” e “Os seus papéis” (composta pelos contos “A luz não se extingue”, “O mistério da árvore”, “Primavera abortada” e “Santa Eponina”). “A morte do palhaço e o mistério da árvore” é uma composição literária povoada por diversas personagens – K. Maurício, o Doido, o Anarquista, o Gregório, o Palhaço, o Poeta, o Pita e a Velha –, através das quais Raul Brandão reflete sobre a realidade e o sonho, sobre os que se encontram na “periferia da vida” e vivem do sonho.


Lendo Raul Brandão de “A morte do palhaço e o mistério da árvore” (1926, p. 32-38):


“Na noite acarvoada, as névoas empastavam-se, com feixes macabros de luar, o vale a repercutir agora as risadas do violino, a Catedral duma imobilidade acusadora no alto. E, esguio, K. Maurício evocava uma planície rasa, sem árvores, duma única cor monótona, onde como um rebanho, nessa claridade de agonia, passavam, com olhares de desespero, os grotescos, os sonhadores e os doentes…


Ninguém bolia. Que quimera dolorosa, com espirros escarlates de sonho, lhes incendiava as almas, chuva de estrelas cadentes na noite negra e funda! Cada um se punha para o seu lado a sonhar e aquilo quase os aureolava, aos pobres, todos eles grotescos, doentes e tímidos! Cada um se agasalhava com a púrpura daquela quimera, e puxava a si, dedos afiados e sequiosos de gozo, os restos enlameados do seu próprio sonho. Era um bando que se sumia no negrume e a que o negrume dava relevo e mistério – o bando de espectros que o seguiam como sombras.


A música do homem do violino corria com o luar e dizia-lhes tudo o que eles não sabiam exprimir: o mal da vida, a dor inquieta que por vezes, sem causa, lhes premia o coração, o que era a morte, a ambição e o amor. O espectro duma oliveira torcia-se, esvaída da dor que o violino espalhava. E encolhidos, de olhares extáticos e arrepios de febre, punham-se a pensar: Que mal excecional é este de viver? E porque é que tanta criatura que sofre, crava as unhas desesperadas na vida, sem a querer largar?...


Porque esta ânsia de querer viver a vida dura e egoísta ou, o que é pior, aborrecida? Os dias seguem-se aos dias, o sol não aquece, os amigos têm sempre a mesma cara e a mesma afeição, que afinal irrita e desespera. Cuidado, porém, em não a experimentar, se a gente quer ter ainda ilusões na alma! Todas as manhãs se acorda com um pedaço maior de secura e esta pergunta: para quê? para que vivo? para que nasce o sol, a água corre e as árvores continuam a ter flores a cada primavera que chega? Parece que já se assistiu a tudo, depois de a gente ter visto como todas as coisas são incompletas e diferentes do ideal que talhamos. Se tudo se sonhou, como não achar tudo pequeno e não ter em frente das sensações de perigo ou de prazer o – era só isto? – de espanto, que sobre cada uma repetimos, – únicas palavras que o tédio sabe dizer, depois da imaginação ter falado. A mesma coisa sempre, as mesmas caras, as mesmas emoções, as mesmas ideias remoídas, e também a mesma raivosa aspiração de ideal, a luta entre a lama e a alma, a sofreguidão inapaziguada de sonhar.


A vida é boa quando de todo se perdeu e se tem pena de não se ter vivido, como a água dum rio, depois de haver chegado ao mar, chora por não apanhar mais sol e banhar mais raízes de árvores. Custa a perdê-la, porque se tem sempre a esperança de se encontrar um lugar, um momento, em que se construa a quimera; custa a perdê-la, pelo que está fora dela – o Sonho. Como um tronco que arde e se extingue, tem-se pena de não se deitar mais labareda e de se não ser ainda brazido: por tudo o que se não realizou, por tudo o que se deixou fugir. Quando se morre, o que se debate ainda dentro em nós com fúria – é a quimera. O que me custa a deixar não é o corpo, é a alma inquieta. Com a morte agarrada a mim, porque é que cravo as unhas na vida, raivosamente? Porque quero sonhar, tirar das coisas, das árvores, da luz, das flores, materiais para ilusões. Ao que cada um se prende é às suas aspirações, às suas penas e não à matéria e ao corpo!...


Morrer é não sentir, não ver, não ouvir, e o que custa, não é perder tudo isto sempre igual, sempre a mesma coisa, deixar as pedras com que arquitetamos para além. Vede: a vida aborrece, mas cada um guarda no seu íntimo a secreta esperança de realizar não sei o quê... Muitas vezes nem se sabe... E se a ilusão cai por terra, morta e inerte, fica sempre a aspiração de sonhar, a raiva de tecer mais doirado...


As mesmas ações, as mesmas cores, direis vós... Cá fora é certo, mas dentro o cenário muda: o cenário está em brasa. Queres ser rei? queres vingar-te?... Sonha!”


O livro “A morte do palhaço e o mistério da árvore”, de Raul Brandão, estará em exposição, até 19 abril 2026, na Sala de Leitura, da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento.

 

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05 março, 2026

Festa Escolar 9 de março - Programa 2026

 

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02 março, 2026

UM MÊS, UMA PEÇA 2026 - Epígrafe de Caturo, filho de Viriato, da Citânia de Briteiros

 



UM MÊS, UMA PEÇA 2026 - Epígrafe de Caturo, filho de Viriato, da Citânia de Briteiros


Super Categoria Arqueologia
Categoria Epigrafia
Nº Inventário SMS-Epi-0007
Denominação Epígrafe de Caturo, filho de Viriato, da Citânia de Briteiros
Cronologia Século I d. C.
Matéria Granito
Dimensões 38 x 48 x 26 cm
Leitura
[C]aturo
Viriatis
Incorporação Coleção de Francisco Martins Sarmento
(descoberta em 1880).

Descrição e origem/historial

A peça que destacamos é um elemento em granito com uma inscrição latina numa das faces. É uma das várias epígrafes que integram o conjunto recolhido na Citânia de Briteiros, neste caso ainda no decorrer das campanhas de escavação promovidas por Francisco Martins Sarmento. Este elemento arquitetónico foi identificado em 3 de setembro de 1880, no decorrer da escavação de um dos bairros habitacionais da acrópole da Citânia. Curiosamente, o achado deu-se umas três semanas antes da visita à Citânia dos elementos que, vindos de Lisboa, participavam no Congresso Internacional promovido nesse ano.

Um detalhado croquis, feito por Sarmento no seu caderno de campo, permite-nos a localização da construção junto da qual apareceu. Estaria no derrube aparente de uma estrutura circular. No entanto, observando-se o local, este elemento podia ter integrado uma parede de uma casa redonda, de facto, mas é também possível que ele tenha caído da parede que delimita o conjunto doméstico, que aparenta identificar, da rua principal da acrópole. Pode ter feito parte de um lintel, mas, mais provavelmente, faria parte de uma ombreira. Embora se conheçam várias epígrafes localizadas no interior dos pátios de vários conjuntos familiares, é também possível que algumas assinalassem o nome de um proprietário, na porta que abria para uma rua pública.

A inscrição foi publicada por Sarmento, em 1884, no Boletim da Real Associação dos Architectos Civis e Archeólogos Portuguezes (atual AAP) e, desde então, foi sendo reproduzida em diferentes corpora das epígrafes identificadas na Citânia de Briteiros. É uma inscrição simples, que contém apenas dois nomes próprios, onde se lê "Caturo, (filho de) Viriato", depreendendo-se a filiação pela terminação do segundo nome. O primeiro nome identifica o proprietário da casa, o segundo será o nome do respetivo pai.

A "casa" em questão é, como nos outros espaços habitacionais da Citânia, um conjunto de casas, ou seja, um espaço delimitado por um muro perimetral, contendo três construções circulares, uma das quais com vestíbulo, e duas construções angulares contíguas. As portas destas estruturas abriam para um pátio central, onde a rocha-mãe foi aplanada para servir de pavimento. Vêem-se depois duas aberturas para a rua principal da acrópole da Citânia, das quais provavelmente apenas uma será original. Nas traseiras do conjunto, poucos metros abaixo, passa a primeira muralha.

Temos assim que Caturo (cujo nome por vezes também se traduz como "Caturão"), filho de Viriato, era um membro da aristocracia local, o que se depreende das características e localização da sua casa, bem como do recurso à escrita alfabética latina para se identificar. A inscrição está datada do século I d. C., mas a casa será mais antiga, posto que se trata de um conjunto mais característico da centúria anterior. As casas construídas na época em que esta epígrafe terá sido gravada, seguiam já o modelo da casa romana, apenas com compartimentos angulares e coberturas de tegula. Este misto de diferentes aspetos culturais e tecnológicos é muito comum nos castros da região, ao longo do século I.

Caturo e Viriato são nomes indígenas bastante comuns no território galaico-lusitano. O primeiro nome é mais comum em Briteiros, mas do nome Viriato, esta inscrição é caso único na Citânia.
Nos Elementos de un Atlas Antroponímico de la Hispania Antigua, de Jürgen Untermann (1965), temos uma ideia da dispersão geográfica destes dois nomes, entre o Noroeste de Portugal e a Estremadura espanhola, sugerindo afinidades linguísticas na Idade do Ferro, dentro deste vasto território do Ocidente da Ibéria.

Bibliografia

- ALBERTOS FIRMAT (1966): La onomástica personal primitiva de Hispania: Tarraconense y Bética. Salamanca: Consejo
Superior de Investigaciones Científicas (Theses et Studia Philologica Salmanticensia, vol. 13).
- CARDOZO, Mário (1985): Catálogo do Museu de Martins Sarmento. Secção de Epigrafia Latina e de escultura antiga,
Guimarães: Sociedade Martins Sarmento.
- GUIMARÃES, João (1901): Catálogo do Museu Archeologico. Revista de Guimarães, vol. 18 (1-2), pp. 38-72.
- LUJÁN MARTÍNEZ, Eugenio (2006): The Language(s) of the Callaeci. In ALBERRO, M. e ARNOLD, B. (eds.) - The Celts of the Iberian Peninsula, e-Keltoi, vol. 6, Milwaukee: Center for Celtic Studies, University of Wisconsin-Milwaukee, pp. 715-748.
- REDENTOR, Armando (2017): A Cultura epigráfica no Conventvs Bracaravgvstanvs (Pars Occidentalis). Percursos pela
sociedade brácara da época romana, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra.
- SARMENTO, Francisco (1883-1884): Inscripções Inéditas. Boletim da Real Associação dos Architectos Civis e Archeólogos
Portuguezes. Lisboa, 2ª série. 4:4, 4:5 e 4:7, pp. 58-59, 69-70 e 105-106.
- SARMENTO, Francisco (1905): Materiaes para a Archeologia do Concelho de Guimarães. Citânia. Revista de Guimarães,
vol. 22 (3-4), pp. 97-123.
- UNTERMANN, Jürgen (1965): Elementos de un Atlas Antroponímico de la Hispania Antigua. Madrid: Consejo Superior de
Investigaciones Científicas, Instituto Español de Prehistoria.

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06 fevereiro, 2026

Um Mês, Uma Peça - UM LIVRO RARO, um dos mais antigos da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento

 


UM LIVRO RARO, um dos mais antigos da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento

Horatii Flacci lyrici poetae opera. Cum quatuor comentariis: & figuris nup additis. commentariis Acronis, Porphyrionis, Landini et Mancinelli. Venetiae: Doninum Pincium, 1505.

Livro em latim, que apresenta a obra - “Opera” - de Quinto Horácio Flaco, autor habitualmente referenciado apenas por Horácio. Foi um apreciado escritor e filósofo, considerado, ainda hoje, o maior poeta da literatura latina. Nasceu em 65 a.C., em Venúsia, atualmente região da Itália, e faleceu em 8 a.C., em Roma, tendo até à sua morte produzido composições poéticas.


“(…) os intelectos mais educados na compostura clássica e mais abertos às vozes da sabedoria antiga, consideram-no ainda o autor predileto; de nenhum poeta latino, como de Horácio, tantos versos foram elevados à notoriedade e à difusão do provérbio. Embora o seu fascínio emane, muitas vezes, mais do conteúdo moral da sua obra do que das suas qualidades artísticas, e suscite mais uma ressonância humana do que uma verdadeira emoção estética, no entanto, ele permanece, até ao presente, para muitíssimas almas, o mais seguro mestre de vida, a quem se volta com assídua simpatia, até em razão da sugestão contida nos seus versos sóbrios e densos de conceitos” (Ettore Paratore, 1987).


O livro de Horácio, existente na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, reúne os trabalhos que constituem as designadas “Odes”, “Epodos”, “Carmen saeculare”, “Arte poética”, “Sátiras” e “Epístolas”, seguidos dos comentários de quatro estudiosos clássicos – Pseudo-Acro, Pomponius Porphyrio, Christophorus Landinus e Antonius Mancinellus.


Muito sumariamente, e segundo alguns investigadores horacianos, é nos “Epodos” que o escritor dá a conhecer o seu talento literário. Nestes textos, Horácio faz a crítica social e política do seu tempo, assim como refere a ternura e a serenidade que o dia-a-dia no campo proporciona. Nas “Odes”, destaca-se a especial feição poética (linguagem e técnica) do autor. Organizadas em quatro livros, Horácio versa sobre os homens da política, e suas respetivas conquistas, glorifica os deuses, elogia os seus amigos, recorda lugares que lhe despertaram interesse e alimentaram a sua criatividade literária. Nas “Sátiras”, escritos organizados em dois livros, o escritor perpassa vários aspetos da sociedade do seu tempo e da sua própria vida. Temas como gastronomia e literatura, perspetivas literárias, morais e filosóficas, observações sobre o quotidiano e as figuras que o povoam, são, em variados momentos, interpolados com pormenores da experiência pessoal de Horácio. É neste último aspeto que alguns investigadores particularizam o escritor latino, considerando o autor que, na sua obra, mais elementos autobiográficos oferece aos leitores. Em “Carmen saeculare”, hino escrito a pedido de Augusto e dedicado a Apolo e Diana, Horácio constrói um texto de louvor a Roma e faz destacar o alcance administrativo do imperador Augusto. Nas “Epístolas”, o escritor reflete sobre o lugar e a função do poeta e da poesia na sociedade, sobre os seus conhecimentos sobre o estilo poético e sobre as suas composições literários. É neste grupo de escritos que se inscreve, uma das mais conhecidas produções literárias de Horácio, a “Arte poética” ou “Epístola aos Pisões”. É considerada, uma espécie de teoria da arte. O escritor debruça-se sobre os princípios da poesia, da construção poética e da formação do poeta, entre outros aspetos.


Os académicos que se têm dedicado aos estudos dos textos de Horácio, destacam as particularidades dos seus trabalhos – a construção poética e as ideias filosóficas que explora – e reconhecem a marcada influência que incutiu na cultura europeia. A “poesia desafiante, desde logo pela abstração sintética do latim em que foi composta” (Frederico Lourenço, 2023), influenciou destacadas figuras das letras. Em Portugal, a marca da escrita de Horácio é assinalada em Luís de Camões e Fernando Pessoa.


Rosado Fernandes (2012), referindo-se ao talento literário de Horácio, destacou que:
“A obra poética que nos deixou é o reflexo da sua personalidade equilibrada, sem ser demasiado satisfeita, do seu carácter ambicioso, sem que por isso fosse possuído por eterno descontentamento. Combinava um bom gosto muito seu, uma ironia prazenteira e um labor incansável, com os resultados da sua experiência poética, com a leitura da poesia grega e romana e com os conhecimentos teóricos que aprendera na escola de Orbílio, nas escolas de Atenas e nos estudos que fez pela vida fora. Desta sorte, a sua obra – em que a τέχνη (ars) grega se combina admiravelmente com o ltalum focetum e com a ironia que ao poeta era peculiar –, ainda que apresente certa diversidade, não deixa de estar unida interiormente pelo seu equilíbrio e bom senso estético”.


O professor Frederico Lourenço (2023) lembra, ainda, que expressões como carpe diem, “juntar o útil ao agradável”, in medias res e “elefante branco”, saíram da obra do escritor latino.


O livro da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento pertenceu a António Alentor, e integra o Fundo de Livro Antigo, nomeadamente o classificado como livro raro. Esta edição dos textos horacianos, antecedidos por uma “carta-dedicatória” ao humanista italiano Julius Pomponius, possui uma observação sobre a obra e uma nota biográfica sobre o escritor romano, ambas da autoria do pedagogo Antonius Mancinellus. Apresenta, também, um poema do poeta e humanista italiano Domitius Palladius, assim como reune as considerações de quatro estudiosos latinos do séc. XV, cujas entradas são identificadas ao longo do texto. Exibe várias capitulares decoradas e possui mais de duas dezenas de ilustrações. Segundo alguns investigadores, os livros desta publicação de 1505, terão sido a primeira edição ilustrada a ser impressa em Itália. As imagens – xilogravuras – integradas na obra foram, algumas delas, elaboradas especialmente para esta edição; outras já tinham sido publicadas em obras anteriores, como na “Biblia vulgare istoriata” (1490) e no livro de Titus Livius, “Ab urbe condita” (1493).


O exemplar da Sociedade Martins Sarmento está incompleto, faltando a folha de rosto, as folhas 81, 113, 265, 266 e 3 folhas com o “Index” e “Registrum”. A encadernação é posterior à edição do livro, sendo constituída por pastas de cartão revestidas a couro; a lombada apresenta quatro nervos e cinco casas. Na segunda casa exibe um rótulo castanho com o nome do autor, gravado com ferros dourados. As restantes casas são decoradas a ouro, com motivos florais. Para a descrição bibliográfica foi tomado como referência o exemplar existente na biblioteca de Munique – Bayerische Staatsbibliothek –, cujo exemplar, acessível digitalmente, apresenta caraterísticas físicas e tipográficas semelhantes.


No âmbito do programa “Um mês, uma peça”, o livro de Horácio – Horatii Flacci lyrici poetae opera. Cum quatuor comentariis: & figuris nup additis – estará em exposição, na sede da Sociedade Martins Sarmento, durante o mês de fevereiro. Esta obra encontra-se descrita no Catálogo Digital da Biblioteca, podendo, também, ser consultada no Arquivo Digital.



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26 janeiro, 2026

LANÇAMENTO DO VOL. 134/135 REVISTA DE GUIMARÃES



Sessão de Apresentação
Sala de Leitura da SMS

31 JAN, 15h30
LANÇAMENTO DO VOL. 134/135
REVISTA DE GUIMARÃES

A Revista de Guimarães é uma publicação da Sociedade Martins Sarmento, editada desde 1884, sendo uma das mais antigas publicações periódicas portuguesas em atividade e uma referência na cultura portuguesa contemporânea.
Ao longo da sua existência a Revista de Guimarães tem acolhido trabalhos nas mais diversas áreas de especialidade, com maior foco na área das Ciências Sociais e Humanas, nomeadamente da Arqueologia e da História. A apresentação deste volume estará a cargo do professor Francisco Azevedo Mendes.

Francisco Azevedo Mendes, professor auxiliar no Departamento de História do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, onde leciona Teoria da História. É membro do Lab2PT (Laboratório de Paisagens, Património e Território) e do IN2PAST (Laboratório Associado para a Investigação e Inovação em Património, Artes, Sustentabilidade e Território).

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