RAUL BRANDÃO NASCEU || 12 março
RAUL BRANDÃO NASCEU || 12 março
RAUL BRANDÃO NASCEU || 12 março
“(…) os intelectos mais educados na compostura clássica e mais abertos às vozes da sabedoria antiga, consideram-no ainda o autor predileto; de nenhum poeta latino, como de Horácio, tantos versos foram elevados à notoriedade e à difusão do provérbio. Embora o seu fascínio emane, muitas vezes, mais do conteúdo moral da sua obra do que das suas qualidades artísticas, e suscite mais uma ressonância humana do que uma verdadeira emoção estética, no entanto, ele permanece, até ao presente, para muitíssimas almas, o mais seguro mestre de vida, a quem se volta com assídua simpatia, até em razão da sugestão contida nos seus versos sóbrios e densos de conceitos” (Ettore Paratore, 1987).
O livro de Horácio, existente na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, reúne os trabalhos que constituem as designadas “Odes”, “Epodos”, “Carmen saeculare”, “Arte poética”, “Sátiras” e “Epístolas”, seguidos dos comentários de quatro estudiosos clássicos – Pseudo-Acro, Pomponius Porphyrio, Christophorus Landinus e Antonius Mancinellus.
Muito sumariamente, e segundo alguns investigadores horacianos, é nos “Epodos” que o escritor dá a conhecer o seu talento literário. Nestes textos, Horácio faz a crítica social e política do seu tempo, assim como refere a ternura e a serenidade que o dia-a-dia no campo proporciona. Nas “Odes”, destaca-se a especial feição poética (linguagem e técnica) do autor. Organizadas em quatro livros, Horácio versa sobre os homens da política, e suas respetivas conquistas, glorifica os deuses, elogia os seus amigos, recorda lugares que lhe despertaram interesse e alimentaram a sua criatividade literária. Nas “Sátiras”, escritos organizados em dois livros, o escritor perpassa vários aspetos da sociedade do seu tempo e da sua própria vida. Temas como gastronomia e literatura, perspetivas literárias, morais e filosóficas, observações sobre o quotidiano e as figuras que o povoam, são, em variados momentos, interpolados com pormenores da experiência pessoal de Horácio. É neste último aspeto que alguns investigadores particularizam o escritor latino, considerando o autor que, na sua obra, mais elementos autobiográficos oferece aos leitores. Em “Carmen saeculare”, hino escrito a pedido de Augusto e dedicado a Apolo e Diana, Horácio constrói um texto de louvor a Roma e faz destacar o alcance administrativo do imperador Augusto. Nas “Epístolas”, o escritor reflete sobre o lugar e a função do poeta e da poesia na sociedade, sobre os seus conhecimentos sobre o estilo poético e sobre as suas composições literários. É neste grupo de escritos que se inscreve, uma das mais conhecidas produções literárias de Horácio, a “Arte poética” ou “Epístola aos Pisões”. É considerada, uma espécie de teoria da arte. O escritor debruça-se sobre os princípios da poesia, da construção poética e da formação do poeta, entre outros aspetos.
Os académicos que se têm dedicado aos estudos dos textos de Horácio, destacam as particularidades dos seus trabalhos – a construção poética e as ideias filosóficas que explora – e reconhecem a marcada influência que incutiu na cultura europeia. A “poesia desafiante, desde logo pela abstração sintética do latim em que foi composta” (Frederico Lourenço, 2023), influenciou destacadas figuras das letras. Em Portugal, a marca da escrita de Horácio é assinalada em Luís de Camões e Fernando Pessoa.
Rosado Fernandes (2012), referindo-se ao talento literário de Horácio, destacou que:
“A obra poética que nos deixou é o reflexo da sua personalidade equilibrada, sem ser demasiado satisfeita, do seu carácter ambicioso, sem que por isso fosse possuído por eterno descontentamento. Combinava um bom gosto muito seu, uma ironia prazenteira e um labor incansável, com os resultados da sua experiência poética, com a leitura da poesia grega e romana e com os conhecimentos teóricos que aprendera na escola de Orbílio, nas escolas de Atenas e nos estudos que fez pela vida fora. Desta sorte, a sua obra – em que a τέχνη (ars) grega se combina admiravelmente com o ltalum focetum e com a ironia que ao poeta era peculiar –, ainda que apresente certa diversidade, não deixa de estar unida interiormente pelo seu equilíbrio e bom senso estético”.
O professor Frederico Lourenço (2023) lembra, ainda, que expressões como carpe diem, “juntar o útil ao agradável”, in medias res e “elefante branco”, saíram da obra do escritor latino.
O livro da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento pertenceu a António Alentor, e integra o Fundo de Livro Antigo, nomeadamente o classificado como livro raro. Esta edição dos textos horacianos, antecedidos por uma “carta-dedicatória” ao humanista italiano Julius Pomponius, possui uma observação sobre a obra e uma nota biográfica sobre o escritor romano, ambas da autoria do pedagogo Antonius Mancinellus. Apresenta, também, um poema do poeta e humanista italiano Domitius Palladius, assim como reune as considerações de quatro estudiosos latinos do séc. XV, cujas entradas são identificadas ao longo do texto. Exibe várias capitulares decoradas e possui mais de duas dezenas de ilustrações. Segundo alguns investigadores, os livros desta publicação de 1505, terão sido a primeira edição ilustrada a ser impressa em Itália. As imagens – xilogravuras – integradas na obra foram, algumas delas, elaboradas especialmente para esta edição; outras já tinham sido publicadas em obras anteriores, como na “Biblia vulgare istoriata” (1490) e no livro de Titus Livius, “Ab urbe condita” (1493).
O exemplar da Sociedade Martins Sarmento está incompleto, faltando a folha de rosto, as folhas 81, 113, 265, 266 e 3 folhas com o “Index” e “Registrum”. A encadernação é posterior à edição do livro, sendo constituída por pastas de cartão revestidas a couro; a lombada apresenta quatro nervos e cinco casas. Na segunda casa exibe um rótulo castanho com o nome do autor, gravado com ferros dourados. As restantes casas são decoradas a ouro, com motivos florais. Para a descrição bibliográfica foi tomado como referência o exemplar existente na biblioteca de Munique – Bayerische Staatsbibliothek –, cujo exemplar, acessível digitalmente, apresenta caraterísticas físicas e tipográficas semelhantes.
No âmbito do programa “Um mês, uma peça”, o livro de Horácio – Horatii Flacci lyrici poetae opera. Cum quatuor comentariis: & figuris nup additis – estará em exposição, na sede da Sociedade Martins Sarmento, durante o mês de fevereiro. Esta obra encontra-se descrita no Catálogo Digital da Biblioteca, podendo, também, ser consultada no Arquivo Digital.
Sessão de Apresentação
Sala de Leitura da SMS
31 JAN, 15h30
LANÇAMENTO DO VOL. 134/135
REVISTA DE GUIMARÃES
A
Revista de Guimarães é uma publicação da Sociedade Martins Sarmento,
editada desde 1884, sendo uma das mais antigas publicações periódicas
portuguesas em atividade e uma referência na cultura portuguesa
contemporânea.
Ao longo da sua existência a Revista de Guimarães tem
acolhido trabalhos nas mais diversas áreas de especialidade, com maior
foco na área das Ciências Sociais e Humanas, nomeadamente da Arqueologia
e da História. A apresentação deste volume estará a cargo do professor
Francisco Azevedo Mendes.
Francisco Azevedo Mendes, professor
auxiliar no Departamento de História do Instituto de Ciências Sociais da
Universidade do Minho, onde leciona Teoria da História. É membro do
Lab2PT (Laboratório de Paisagens, Património e Território) e do IN2PAST
(Laboratório Associado para a Investigação e Inovação em Património,
Artes, Sustentabilidade e Território).
Presépio de figurado de Barcelos
Super Categoria Etnologia
Categoria Artes plásticas
Subcategoria Olaria figurativa
Nº Inventário ET-0463
Denominação Presépio de figurado de Barcelos
Autor Domingos Gonçalves Lima - "Mistério"
Cronologia 1965
Fabrico/ Marca Oficina do Oleiro "Mistério", Galegos Santa Maria, Barcelos
Tema Religião
Técnica Moldagem - Modelagem
Marca Assinado na base, lado direito "MISTÉRIO"
Matéria Barro branco, arame e tintas multicolores
Dimensões 28 x 31 x 22,5 cm
Incorporação Oferta de Margarida Rosa Cassola Ribeiro em 30 de Março 1971.
Descrição: A obra mostra uma representação artesanal do Presépio de Natal.
O presépio retrata o nascimento de Jesus e inclui figuras como a Sagrada Família; os três Reis Magos; os animais; o Anjo e estrela.
São José - Figura de barro representando S. José ajoelhado, envolvido numa veste azul-turquesa pregueada, que se cruza com manto amarelo ocre, que lhe cobrem todo o corpo. O manto apresenta-se franjado, com as franjas incisas e pintadas de dourado. O braço direito, encontra-se arqueado, com a mão direita fechada, empunhando um cajado, enquanto leva à cara a mão esquerda aberta. A cabeça tem cabelo grisalho, riscado com incisões. O rosto está coberto por bigodes e barba cinzenta. As orelhas são salientes, com o ouvido marcado, os olhos duas ovais incisas com um ponto negro central, o nariz é proeminente, triangular, com uma placa semicircular horizontal que as narinas perfuram, sendo a boca uma incisão horizontal com o interior pintado a vermelho. Apresenta uma auréola circular no topo da cabeça, dourada, recortada nos bordos, enfeitada com incisões circulares, e linhas retas e oblíquas. O cajado é composto de uma haste feita com um segmento de arame pintado de amarelo.
Nossa Senhora - Figura de barro representando Nossa Senhora, ajoelhada, com a cabeça coberta por um véu branco, veste uma túnica branca pregueada, adornada com linhas verticais douradas. As mãos sobressaem da túnica branca, cruzadas. O rosto é afilado, com o queixo apontado. Por baixo do véu, pequenas incisões figuram os cabelos em franja. Os olhos são duas incisões ovais perfuradas com um ponto negro ao centro, o nariz é saliente, triangular, com as narinas perfuradas, sendo a boca uma incisão horizontal, com os lábios salientes e o interior pintado de vermelho. Apresenta uma auréola circular dourada no topo da cabeça, recortada nos bordos, enfeitada com incisões circulares e linhas retas e oblíquas.
Menino Jesus - Figura de barro representando o Menino Jesus deitado sobre palhinhas. Estas são feitas com segmentos tubulares dispostos verticalmente, apoiados sobre outros segmentos, dispostos paralela e horizontalmente. O menino encontra-se deitado, com o corpo despido, as pernas esticadas, os pés com os dedos marcados, uma perfuração figurando o umbigo, de braços abertos ao alto. No rosto as orelhas são salientes, os olhos são duas incisões ovais e um ponto negro perfurado no centro, o nariz é proeminente, de forma triangular, com as duas narinas perfuradas. São visíveis as bochechas e o queixo, e a boca com o interior vermelho. O cabelo é escuro, com incisões.
Reis Magos - Três figuras com coroas, recortadas nos bordos, vestes coloridas e presentes simbólicos.
Vaca deitada - Figura de barro representando uma vaca deitada , de cor castanha-ocre. O corpo do animal, é semicilíndrico, sendo as coxas traseiras e dianteiras, de ambos os lados, marcadas com incisões profundas, salientando as patas encostadas ao corpo e os cascos pintados de negro. Uma comprida cauda negra, rodeia a pata traseira. O pescoço está levantado, sendo ladeado por uma fileira de incisões pintadas de negro. A cabeça apresenta dois cornos paralelos recurvados e pontiagudos, pintados a branco com a ponta negra. Por baixo as orelhas aparecem espetadas, ovais. Os olhos são ovais, grandes, incisos, brancos com um ponto negro perfurado ao centro. O focinho saliente tem a forma cilíndrica, com duas perfurações na ponta figurando as narinas e a boca aberta, pintada de vermelho no interior.
Burro deitado - Figura de barro representando um burro deitado de cor cinzenta. O corpo do animal, é semicilíndrico. O pescoço é cónico, com um dos seus lados coberto por incisões sucessivas, negras, figurando a crina. No topo da cabeça, as orelhas triangulares apontam para cima, sendo o interior oco e pintado de cinzento. Dispostos lateralmente, os olhos são ovais, grandes, incisos, brancos com um ponto negro perfurado ao centro. O focinho saliente tem a forma cilíndrica, com duas perfurações na ponta figurando as narinas e a boca aberta, pintada de vermelho no interior.
Anjo e Estrela: Um anjo a flutuar acima das figuras e uma grande estrela dourada no topo do presépio, simbolizando a Estrela de Belém.
Galo: Na tradição cristã, é o responsável pelo despertar das alvoradas "o galo cantou à meia-noite do nascimento de Jesus".
Cenário: A cena está montada sob um arco azul claro decorado com estrelas e bordas triangulares, recortadas e douradas.
Origem/Historial Faz parte da série de objetos de artesanato popular, que pertenciam à coleção particular da senhora D. Margarida Ribeiro (1911-2001), que doou à Sociedade Martins Sarmento entre 1969 e 1971, composta por 47 objetos de diferentes regiões do país, na sua maioria de Estremoz e Barcelos.
Autor Domingos Gonçalves Lima nasceu a 29 de Agosto de 1921 em Galegos São Martinho. Filho de mãe solteira, a trabalhar em Espanha, foi criado pela avó, Rosa Gonçalves Lima. Conta que a alcunha "Mistério" lhe tinha sido dada por ser uma criança débil, e os vizinhos dizerem ser um mistério ter sobrevivido. Aprendeu a fazer figurado com a avó, bonequeira, que o vendia na feira semanal de Barcelos. Inicialmente, fazia coisas simples, juntamente com a sua avó, para vender. Aos 12 anos, as suas peças já revelavam algum domínio da técnica do figurado de barro. Abordava temas do quotidiano rural, representando matanças do porco, juntas de bois e animais diversos. Por influência de uma educação profundamente religiosa, reproduziu esta temática nas alminhas, santos populares, presépios, Reis Magos, Ceias, Nascimento e Morte de Jesus. Devido às características das suas peças, sempre com um toque de humor, é bem aceite pelo público que o conhece pela alcunha de "Mistério", nome com que assina as peças. Casou-se com Virgínia Esteves Coelho (1924-2013), de quem teve doze filhos. Passou a vender por conta própria, mercadoria que comprava nas fábricas e peças a molde que fabricava com a mulher. Na década de 60 a notoriedade de Rosa Ramalho trouxe novo valor ao figurado feito à mão, que passou a ser vendido, já não como brinquedo de criança, mas como criação individual, peça única, para uma clientela urbana que procura o artigo em casa do artesão. Surgem as Feiras de Artesanato, no Estoril, em Belém, no Porto, Mercado Ferreira Borges, em Vila do Conde, onde os artesões expõem o figurado e trabalham ao vivo. "Mistério" cria um tipo de figuras com características próprias, de grandes orelhas, narizes desmesurados, olhos salientes. Sempre com um toque de humor, satiriza, cria Diabos a quem juntou a companheira e a família, a diaba e os pequenos diabinhos. Atento, reproduz cenas do quotidiano de trabalho e festa, figuras em atividades rurais. Recria o bestiário, galos, ouriços, figuras híbridas, fantásticas. Distingue-se nas cenas religiosas, as procissões de vários altares e numerosos participantes, as Alminhas em que põe padres e bispos no Inferno, no candelabro para sete velas, uma menorah que celebra o nascimento e a morte de Jesus, na Última Ceia, nos diversos tipos de presépios. Era a sua mulher Virgínia que pinta as figuras, acompanhando o gosto pela sátira do marido com as suas cores vivas, primárias, e a indiferença pelo realismo, roçando uma espécie de absurdo alegre - os Reis Magos de calças ou camisas cor-de-rosa vivo, São José de túnica azul-turquesa, cores que se tornaram igualmente uma das características definidoras do figurado de "Mistério".
Ganhou o primeiro prémio no III Salão de Artesanato do Casino Estoril com a peça Procissão Minhota, em 1983. Domingos "Mistério" morre em 1995. Os seus filhos Francisco e Manuel, que sempre trabalharam com o pai, continuam a sua obra, acrescentando novas criações aos modelos do pai e assinam as peças por "Mistério Filho F." e "Mistério Filho M."
Bibliografia
- CARDOSO, Cátia Daniela (2019). Memória e Identidade: Novos Paradigmas da Olaria e Figurado de Barcelos. Porto: Escola Superior de Educação. Dissertação de Mestrado.
- CARNEIRO, Eugénio Lapa (1962). Donde vem a confusão entre louças do Prado e louças de Barcelos. Barcelos.
- CEARTE. (2014). Caderno de Especificações para a Certificação. Câmara Municipal de Barcelos. [https://www.cearte.pt/public/media.501711554/files/gpao/191_CE_Figurado-Barcelos_20191127.pdf]
- CORREIA, Ana Rita Oliveira (2021). Bonecos, Coleção e Museu. O Figurado de Barcelos pelas mãos de Sellés Paes. Vol. I. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
- CORREIA, João Macedo (1965). As Louças de Barcelos. Cadernos de etnografia, nº 4. Barcelos: Oficinas Gráficas da Companhia Editora do Minho.
- JÚNIOR, J. R. Santos, Bonecos de Barro (1940). «Vida e Arte do Povo Português», Lisboa.
- PEIXOTO, Rocha (1966). As Olarias de Prado: Cadernos de Etnografia, nº 7, Museu Regional de Cerâmica.
- RIOS, Conceição (2006). Figurado de Barcelos: Desenhos de Barro. Câmara Municipal de Barcelos: Museu de Olaria
- REINA, Carina; MOSCOVO, Patrícia (2010). Variações sobre um tema: Figurado Barcelense: de Rocha Peixoto a Rosa Ramalho. «Boletim Cultural Póvoa de Varzim», 44, 7-45.
- Sociedade Martins Sarmento (1995). Exposição inventário de artesanato: olaria popular [catálogo].
- VILLAS BOAS, Joaquim Sellés Paes (1948). Notas de Cerâmica Popular III. O Vocabulário dos Oleiros de Barcelos in Separata do Vol. III de Ethnos, Lisboa
A LANTERNA MÁGICA
Caricatura e Imprevisto de RAFAEL BORDALO PINHEIRO
Nos 150 anos do Zé Povinho
Assinalando os 150 anos do periódico “A Lanterna Mágica”, de Rafael Bordalo Pinheiro, a Sociedade Martins Sarmento destaca a publicação e evoca a figura e a obra do artista, considerado o maior caricaturista português, tido, ainda, como o iniciador desta arte em Portugal.
Rafael Bordalo Pinheiro nasceu em 1846, no seio de uma família de artistas. Evidenciou gosto pelo teatro, fez incursões pela pintura, pela decoração e pela cerâmica, mas a caricatura foi a expressão artística que mais notoriedade lhe conferiu. Irisalva Moita afirma que “concorria em Rafael Bordalo Pinheiro um tão importante conjunto de predicados necessários ao caricaturista, espírito crítico, poder de síntese, penetração psicológica, amor ao próximo, desenho inciso e rápido, intuição, poder de fixação do essencial, que era neste campo que o Artista havia de, forçosamente, encontrar-se”.
A partir de 1870, os trabalhos de Bordalo Pinheiro, no domínio do desenho-caricatura, começam a formar-se com mais significado, sendo “A lanterna mágica” (1875) o primeiro periódico de crítica humorístico-caricatural de maior expressão. Em colaboração com importantes figuras do meio artístico e literário da época, Rafael Bordalo Pinheiro principia, neste órgão, a crítica metódica e regular ao governo, aos políticos, às instituições e às principais figuras da sociedade e da cultura portuguesa de oitocentos. Este periódico figura-se, assim como os trabalhos sequentes, nomeadamente “O António Maria”, o “Álbum das glórias” e “A parvónia”, numa espécie de arquivo/repositório de acontecimentos políticos, sociais e culturais da sociedade portuguesa do seu tempo que, para além do conhecimento que proporcionam sobre as posições e a personalidade do autor, permitem estabelecer o retrato de uma época, assim como refletir sobre o estado do país.
É ainda, no jornal “A lanterna mágica”, que Rafael Bordalo Pinheiro põe em cena, pela primeira vez, há 150 anos, a icónica e intemporal figura do Zé Povinho, representação do povo português. Acompanhar a vida do Zé Povinho, pela mão de Rafael Bordalo Pinheiro, é assistir ao desenrolar da cena político-administrativa, social, artística e cultural do país e conhecer os impactos das decisões dos seus principais atores – reis, príncipes, ministros, políticos, escritores, atores e instituições – no quotidiano do povo.
Caricaturista, com a pena e com o barro, embora, como escreve Raul Brandão (1903), também, os olhos, o nariz, as mãos e até o bigode que se encrespa, desenham e imitam, Rafael Bordalo Pinheiro dissecou graficamente a 2.ª metade do século XIX português, com sentido de humor, espírito crítico, evidenciando uma profunda afeição à liberdade e aos ideais republicanos. Maria Virgílio Cambraia Lopes (2005) assinala que “não se pode recordar sem um sorriso o caricaturista que, meticulosamente, semana a semana, durante trinta e cinco anos (de 1870 a 1905), registou – com a veia humorística que lhe era peculiar – tudo o que de relevante fez parte da vida cultural, social e política do país”.
Autor de numerosos trabalhos – muitos deles publicados em diversas publicações da época, nacionais e estrangeiras, outros tomaram forma enquanto obra ceramista – Bordalo Pinheiro foi uma figura de grande talento criativo e de caracterização do período em que viveu.
O traço artístico da obra cerâmica de R. Bordalo Pinheiro, manifesta-se no intenso colorido, na riqueza e na expressão das formas dos elementos naturalistas, no figurado de tipo popular e nas cenas de natureza etnográfica que o artista criou e executou na antiga Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.
Deixou-nos, entre muitos outros trabalhos, o figurado dos Passos da Paixão de Cristo, destinado às Capelas do Buçaco, por encomenda do Estado Português, e que atualmente se encontra no Museu José Malhoa; participou, também, na construção do Pavilhão de Portugal, na Exposição Universal de Paris (1889), assim como realizou a decoração do Pavilhão de Portugal, na Exposição Colombiana de Madrid (1892).
A exposição, A LANTERNA MÁGICA, a caricatura e o imprevisto de Rafael Bordalo Pinheiro, proporciona um olhar sobre a complexa e plural obra do caricaturista, um dos mais prolíficos artistas da segunda metade do século XIX em Portugal, acompanhando, também, a sua especial personagem o “Zé Povinho”, no quotidiano da vida política, social e económica da época.
Crucifixo
Super Categoria Arte
Categoria Metais
Nº de Inventário ET-591
Objeto Crucifixo
Proveniência Santa Eufémia de Prazins, Guimarães
Cronologia Séc. XII/XIII
Matéria Cobre e esmalte de Limoges
Técnica Champlevé
Dimensões 34 x 27,3 cm
Descrição
Crucifixo em cobre constituído por lâmina única (fundido?), anatomia sumária, gravada. Coroa em lâmina enrolada e soldada. Conserva ainda o esmalte no perizonium, mas já não nas cavidades oculares, onde certamente o teve.
Figuração de Cristo crucificado coroado, com o cabelo longo sobre os ombros. Cabeça reclinada sobre o ombro direito, braços retos, corpo encurvado e joelhos em posição frontal, levemente fletidos, pés posicionados lado a lado, fixos em dois pontos, delineados a cinzel sobre o supedâneo trapezoidal. Vestígios de decoração puncionada na coroa.
Perizonium longo envolvendo os joelhos e mais longo atrás, com pregas verticais esmaltadas a azul, sob o ventre e ao centro na vertical banda como cinto, branca.
Foi adaptado a uma cruz de fabrico posterior, patada, construída com duas lâminas estampadas e decoradas com punção formando padrão geométrico, unidas pelo bordo. Conserva espigão no arranque da haste para fixação em suporte.
Incorporação Oferta de Fernando da Costa Freitas, sócio correspondente da SMS, em 2 de junho de 1927. Filho do Dr. Avelino Germano da Costa Freitas, um dos fundadores da SMS.
Observação Numa comunicação do consócio Sr. Dinis de Santiago enviada à Sociedade Martins Sarmento, em agosto de 1927, este refere uma peça semelhante, existente no Museu de Berna, e cuja transcrição do comunicado transcrevemos:
«Tendo visto no último número da «Revista de Guimarães» a gravura que reproduz a interessante «Cruz Latina», valiosa peça arqueológica, que o Sr. F. da Costa Freitas há pouco tempo ofereceu à S. M. S., notei a grande semelhança que a imagem de Cristo colocada na dita cruz tem com outra imagem idêntica, embora já desprovida da cruz, existente no museu de Berna, na Suíça, proveniente da capela de Saint-Martin s/ Evolène.
São as duas imagens iguais no conjunto e nos pequenos detalhes que bem demonstram terem sido feitas na mesma época, notando-se apenas uma ligeira diferença na expressão fisionómica.
Esta imagem é considerada no museu de Berna como um dos mais curiosos espécimens de joalharia românica existente naquele edifício. É feito em cobre rebatido e dourado, mas como digo, não tem cruz, pois está actualmente fixado a um suporte moderno.
Foi classificado por Jakob Stammler (der Paramentschatz im Historischen Museum zu Berne) como obra do século XII ou XIII e dum grande valor arqueológico. H. Vulliety na «La Suisse á travers les âges» traz uma notícia sobre esta peça e na página 115, na fig. 267 a gravura que a reproduz.»
Glossário
Champlevé - é uma técnica de esmalte onde se criam cavidades na superfície do metal (cobre ou bronze), por meio de gravação, entalhe, ou erosão ácida. Esta técnica foi amplamente utilizada na arte medieval, especialmente em objetos de arte de regiões como Limoges (França), Colónia (Alemanha) e Liège (Bélgica).
Perizonium - peça de vestuário de Cristo crucificado, também conhecido como "pano de pureza".
Patada - objeto que recebeu uma pátina (uma camada de oxidação ou desgaste artificial). É um acabamento que simula o envelhecimento ou um efeito desgastado em materiais como madeira ou metal.
Exposições
- Comemorações dos 850 anos da Fundação de Abrantes, Câmara Municipal de Abrantes, de 23/11/1998 a 13/01/1999
- Azul e ouro. Esmaltes em Portugal da Época Medieval à Época Moderna, Museu Nacional de Soares dos Reis de 22/7/2021 a 31/10/2021
- Azul e ouro. Esmaltes em Portugal da Época Medieval à Época Moderna, Museu Nacional Machado de Castro de 19/11/2021 a 23/01/2022.
Super Categoria Arqueologia
Categoria Artefactos ideotécnicos
Subcategoria Rituais
Nº de Inventário MSA-2648 e MSA –2649
Objeto Campainhas romanas
Proveniência Vaca Negra, Urgeses, Guimarães
Cronologia Século II d.C.
Matéria Bronze
Técnica Fundição
Altura 7,2 e 5,9 cm
Diâmetro 9,9 e 10,7 cm
Peso 508 e 326 g
Descrição
Campainhas ou tintinnabula de secção hemisférica, de dimensões idênticas, uma está completa, a outra já não possui o pedúnculo de suspensão.
As campainhas romanas de Urgezes
Um dos achados romanos mais peculiares de Portugal foi a recolha de um par de campainhas de bronze (tintinnabula), e duas ânforas romanas, na freguesia de Urgezes, ao arrancar uma árvore. O achado terá ocorrido em 1921, ou pouco antes, porque foi nesse ano que os materiais foram doados ao Museu Martins Sarmento, pelo Dr. Joaquim José de Meira.
Foi um achado ocasional, com um contexto incerto, característico de grande parte dos achados arqueológicos mais expressivos ocorridos na época em questão. Além do seu extraordinário estado de conservação, trata-se de dois raros exemplares de instrumentos musicais da Antiguidade que se conservam.
Ao classificar estas duas peças idênticas como instrumentos musicais, não devemos limitar a sua possível utilização original, que pode ter sido diversa. Campainhas foram usadas quer para a produção de música, propriamente, quer como alfaias litúrgicas, objetos votivos, peças colocadas em sepultamentos, objetos utilizados em cerimónias públicas como inaugurações ou abertura de festividades. Era também comum a utilização de campainhas como objeto apotropaico, colocado junto às portas das casas como elemento de proteção espiritual, ou com uma função mais simples como a sinalização de animais nos pastos.
O facto de desconhecermos hoje o seu contexto específico de deposição limita bastante a sua interpretação, quer quanto à real função destas peças, quer quanto ao sítio arqueológico onde elas foram recolhidas, algures no lugar conhecido como Vaca Negra, não longe da Igreja Matriz ("Velha") de Urgezes. Também junto a esta Igreja recolheu Martins Sarmento fragmentos de tegulae.
Parece assim verificar-se um padrão em relação à identificação de vestígios de época romana nas imediações das igrejas paroquias do Concelho de Guimarães, ou na área do núcleo original das paróquias.
Bibliografia
- BEARD, M. (2010). Pompeia: O dia-a-dia da mítica cidade romana, A Esfera dos Livros, Lisboa.
- BLÁZQUEZ MARTÍNEZ, José María (1984-85) - Tintinnabula de Mérida y de Sasamón (Burgos). Zephyrus 37-38, pp. 331-335.
- DAREMBERG, Charles Victor e SAGLIO, Edmond (1892) - Dictionnaire des Antiquités Grecques et Romaines, tomo V, p. 341 [tintinnabulum], Paris.
- PINA, José (1921) - Boletim, Revista de Guimarães, XXXI, p. 94.
- VILLING, Alexandra (2002) – For Whom did the bell toll in ancient Greece? Archaic and Classical Greek bells at Sparta and beyond, The Annual of the British School at Athens, 97, pp. 223-295.
Super Categoria Arqueologia
Categoria Cerâmica utilitária
Subcategoria Iluminação
Nº de Inventário MSA-2500
Objeto Candela
Proveniência Eiriz, Paços de Ferreira
Época Romana
Cronologia séc. IV-V d.C.
Matéria Cerâmica
Técnica Torno
Largura 7,5 cm
Altura (parte central) 3,8 cm
Diâmetro bocal 2,5 cm
Comprimento 10 cm
Descrição
As designadas “lucernas abertas” ou candelas, constituem uma nova variante no que diz respeito à forma dos recipientes romanos de iluminação.
Estas peças caracterizam-se pela sua forma aberta e por serem produzidas em contextos tardios, nomeadamente no séc. II- VI, convivendo ainda com algumas tipologias de lucernas tardias.
As candelas são difíceis de tipificar por serem fabricadas a torno, o que implica a criação de numerosas variantes morfológicas.
Deste tipo, estão identificadas candelas em Braga, Póvoa do Varzim, Vila Praia de Âncora, Alvarelhos, Porto, Amarante, Guifões e Maia.
Esta candela, de tipo 3, apresenta o corpo hemisférico e paredes arqueadas. Com bordo envasado e lábio boleado introvertido de desenvolvimento horizontal. De fundo ligeiramente côncavo e de médias dimensões, apresentando marcas do torno e da corda de oleiro com que a peça foi cortada. O rostrum central cilíndrico que se desenvolve até ao limite superior do bordo, apresenta três fendas verticais ovaladas. Possui asa de fita, ligeiramente elevada. A pasta é compacta de cozedura uniforme, de coloração cinzento-escuro devido ao contacto com a chama. Apresenta elementos não-plásticos compostos à base de quartzo e mica de calibre médio/grosso. A superfície é alisada com vestígios de espatulamento com a mecha.
Desconhece-se o ano de entrada da peça no museu bem como o seu doador.
Bibliografia
- ALMEIDA, José António Ferreira de, Introdução ao estudo das Lucernas Romanas em Portugal, In O Arqueólogo Português, Lisboa, 2ª Série, 1953, vol. 2, pp. 187, estampa XLIV, nº 220
- BAIRRÃO OLEIRO, João Manuel, Lucernas romanas: catálogo, Coimbra, 1952, p. 28, Est. VIII, nº 14
- BELCHIOR, Maria Claudette Alves, Lucernas romanas de Conimbriga, Coimbra, 1971, p. 52, nº 107, Est. XII, nº 3
- ESTEVES, Andreia Filipa Campos, Contributo para o estudo das lucernas de produção local/regional no Norte de Portugal, Dissertação de Mestrado em Arqueologia, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2016, Estampa 100, nº253
- PINTO, Rui Serpa, Museu de Martins Sarmento, In Revista de Guimarães, vol. 39, 1929, p. 180, fig. 3
- SILVA, Armando Coelho Ferreira da, Paços de Ferreira - as origens do povoamento: do megalitismo à romanização In Paços de Ferreira. Estudos monográficos, volume 1, 1986, p. 125, Est. XXVIII, nº 8
- WALTERS, Henry Beauchamp, Catalogue of the Greek and Roman Lamps in the British Museum, London, 1914, p. 215-216, nº 1414, 1415, 1430 e 1431
Guimarães e Francisco Martins Sarmento, na Tintura Científica e Literária de CAMILO CASTELO BRANCO
CAMILO CASTELO BRANCO NASCEU, no dia 16 de março de 1825, em Lisboa. Foi um literato extraordinariamente versátil, tendo sido com a criativa “pena” de homem de letras, jornalista, poeta, romancista, dramaturgo, biógrafo, bibliógrafo, polemista, crítico, cronista e investigador histórico. Fez ainda traduções, revisões e anotações de trabalhos de outros autores, organizou edições várias, entre outros textos. Foi um polígrafo singular. Em 1885 foi agraciado, pelo Rei D. Luís, com o título de Visconde de Correia Botelho.
Considerado por muitos como um dos mais destacados génios da literatura portuguesa, o escritor da Casa de Seide, como assinalou o Conde de Sabugosa (1925), “deu à fala lusa duas notas que o patriciado dos clássicos desconhecera – O Riso e as Lágrimas (…) com lunetas feitas de Ironia os seus olhos observaram incisivamente os ridículos que o rodeavam (…) a sua alma doente ensinou-lhe o segredo de expressar a Dor. Riu e chorou! Foi humano! Foi genialmente humano. Entre a zombaria e a amargura Camilo abria por vezes parêntesis de afável sociabilidade que faziam as delícias dos seus íntimos”.
Os escritos que Camilo Castelo Branco deixou publicados, evidenciam a sua grande capacidade de observação da sociedade em que viveu, permitindo-nos através deles estabelecer um retrato do ambiente social, cultural, político e económico de Portugal no séc. XIX. Proporcionam um meio que permite sobre a condição do ser humano e os costumes da época.
Por entre as “onze dúzias de livros” de Camilo Castelo Branco, como observa Alberto Vieira Braga (1925), o escritor “pintou a natureza toda, inteira, nas sensações, nas gamas, nos segredos, perscrutou das paixões e foi traçando a largas manchas os encantos da terra, os venenos da vida e as corrupções da alma, dando esbelteza ao sorrir das flores, maviosidade ao gorjeio das aves, doçura ao canto das mulheres e imprimiu ritmo de graça ao jeito dos braços que se quebram nas danças de folga, e deu balanço de harmonia ao jeito do corpo que se consome no lidairar do trabalho, pôs a alma na grandeza da esmola, no amparo do faminto, no frio da desgraça e cobriu de beijos os filhos tenros das mulheres perdidas; sorriu a pobres, cariciosamente, amparou misérias, com ternura, sacudiu palhaços, agitou carcaças, arremeteu contra fantasmas, jogou o pim-pam-pum, fez dançar muitos robertos como que em cacifos de feira, cascalhou de ironia, atenazou corações, salvou almas, matou muita gente e perdeu muita mulher!... Soube rir e soube chorar; soube sofrer e penar como mártir, e soube lutar e morrer como homem, filho do desalento e da desgraça!”.
Também, Guimarães e Francisco Martins Sarmento vivem na obra literária de Camilo Castelo Branco. Com o erudito vimaranense o escritor de Seide manteve, durante vários anos, uma relação de profunda amizade, assim como de comunhão e partilha intelectual. Camilo, para além de várias referências que na sua obra fez a Martins Sarmento, também dedica ao arqueólogo vimaranense os livros “O regicida” e “No Bom Jesus do Monte”. O espírito benemérito de ambos, evidencia-se no contributo que dedicaram na obra “Óbolo às crianças”.
Vários textos camilianos, como “A viúva do enforcado”, “Memórias do Cárcere”, “No Bom Jesus do Monte”, “A filha do regicida” e “A brasileira de Prazins", entre outras obras, são povoados por paisagens e personagens vimaranenses, reais ou ficcionadas.
Nos 200 anos que passam sobre o nascimento do escritor da Casa de Seide, a Sociedade Martins Sarmento assinala a efeméride camiliana, apresentando a exposição Guimarães e Francisco Martins Sarmento, na tintura científica e literária de Camilo Castelo Branco. O momento expositivo revisita a obra de Camilo, especialmente o trabalho literário com referências ao território vimaranense, e a relação de amizade entre o escritor e F. Martins Sarmento.
Maria Angelina e Raul Brandão. Arquivo Sociedade Martins Sarmento.
12 de março de 1867, RAUL BRANDÃO NASCEU no Porto, na Foz do Douro. Foi escritor. Casou em Guimarães, com a vimaranense Maria Angelina, e viveu na Casa do Alto, Nespereira, local onde escreveu uma parte significativa da sua obra literária.
A Sociedade Martins Sarmento assinala mais um aniversário do Escritor da Casa do Alto, revisitando o II volume das “Memórias” de Raul Brandão, publicado pelo escritor em 1925, através de um excerto do texto “O silêncio e o lume” (para Maria Angelina Brandão):
“A certa altura da vida tive a impressão de que me despenhara num mundo de espectros. A face humana meteu-me medo pelo que nela descobria de repulsivo e grotesco. Fugi para poder viver; tudo me soava falso e me parecia inútil. Paz e uma árvore. Vamos, disse-te, ser como aqueles náufragos de jangada, que vi numa estampa, agarrados um ao outro, entre o mar encapelado. Estamos nas mãos de uma coisa desconforme e frenética que nos dá a ilusão e a morte. Deixemo-nos levar, que isto dura pouco. E daí não sei… Muitas vezes tenho perguntado se seríamos mais felizes noutra existência calma. Supõe a eternidade imutável no céu imutável, e talvez tivéssemos saudade da dor…
Mas tudo isto no fundo, bem no fundo, era egoísmo. Não compreendia a vida. À própria natureza preferia um cenário. E o que eu não queria era ver a outra coisa enorme – a outra coisa esplêndida que é a Vida. O que eu não queria era ver…
Fugimos para a aldeia…A nossa casa fica a meia encosta da colina. Por trás o mar verde dos pinheiros, em frente os montes solitários. Este cantinho rústico criei-o eu palmo a palmo. Tudo isto foi pedra e uma árvore contemporânea da fundação da monarquia. O carvalho centenário cobria todo o eido. Era enorme, era prodigioso. No tronco, que nem seis homens podiam abranger, tinham os bichos as luras e seu hálito sentia-se ao longe. Logo que o vi fiquei apaixonado. – Vamos viver juntos, vou envelhecer ao pé de ti. – Nós não ouvíamos as árvores, mas a sua alma comunica sempre connosco: sua força benigna toca-nos e penetra-nos…
Construí a casa, plantei as árvores, minei as águas. Absorvi-me. Uma pedra basta, basta-me um tronco carcomido…Este tipo esgalgado e seco, já ruço, que dorme nas eiras ou sonha acordado pelos caminhos, sou eu. Sou eu que gesticulo e falo alto sozinho, envolto na nuvem que me envolve e impregna. Que força me guia e impele até à morte?”
Tenho apanhado sol em todas as eiras. Nunca me farto de ver as grandes pedras veneráveis, nem de falar com jornaleiros, cavadores e pedreiros, que não ganham para comer (…) Refiro-me principalmente aos pedreiros – geração formidável que há séculos vem rachando a alvenaria para edificar a casa, erguer os socalcos e lajear as eiras. São homens só ossatura e pele, que na mesma cantilena – ou pedra – ou – oupa – lá – têm erguido as cabanas de todos estes arredores. É o Tordo, o Carvalhoa, o Bernardino, quase todos da mesma família, alguns velhos de poucas falas, e os filhos, que vão sucedendo aos pais no mesmo mester de cortar a laje e a afeiçoar a pico e cinzel, sempre cantando e trabalhando – ou pedra – ou – oupa – lá – para no fim da vida acabarem de fome.
O que aqui conserva um caráter eterno são as árvores, os montes e o trabalho no campo e nas eiras, que à força de ser transmitido – sempre os mesmos gestos – adquiriu uma beleza extraordinária, entranhada até ao âmago nos vivos e nos mortos.”
UM MÊS, UMA PEÇA - Alabardas de Carrapatas
Super Categoria Arqueologia
Categoria Armas
Nº de Inventário MSA-781 e MSA-782
Objeto Alabardas
Cronologia Bronze Antigo (2200-1750 a.C.)
Matéria Cobre arsenical
Proveniência Carrapatas, Macedo de Cavaleiros, Bragança
Largura 13,3 cm e 9,5 cm
Comprimento 34,5 cm e 29,5 cm
Espessura 0,8 cm
Peso 635 g e 540 g
Descrição
Estas duas alabardas em cobre arsenical foram encontradas num local não especificado algures no território de Freguesia de Carrapatas, Concelho de Macedo de Cavaleiros. Por esta razão estão na origem do nome da tipologia que as definiu no âmbito da investigação arqueológica: o subtipo Carrapatas, das chamadas "alabardas atlânticas", produzidas na primeira Idade do Bronze. A produção destes objetos, embora cronologicamente integrada no que chamamos Idade do Bronze, terá ocorrido num momento anterior à introdução da metalurgia deste metal no Ocidente da Península Ibérica.
Caracterizam-se pelo tipo de lâmina triangular larga, de extremidade arredondada. É provida de um espesso reforço ou veio longitudinal, o qual é seguido, de ambos os lados, por caneluras que acompanham o fio da folha metálica. A zona de encabamento, muito larga, tem contorno triangular de ângulos arredondados e possui três orifícios para rebites, que uniriam a lâmina à haste da alabarda.
As duas alabardas apresentam dimensões diferentes, mas são exatamente do mesmo modelo e de idêntica constituição metálica, o que leva a crer que tenham saído ambas da mesma oficina de fundidor. Sendo peças vistosas, com caráter excecional e aparentemente fabricadas em contexto doméstico, em pequena escala, crê-se que estas peças não teriam uma utilização prática, sendo antes consideradas objetos de prestígio. De facto, elas não evidenciam utilização. Embora se desconheça o contexto concreto em que estes dois exemplares foram recolhidos, nos casos em que o mesmo foi registado, é habitual surgirem em enterramentos ou em depósitos de materiais metálicos, cuja interpretação varia entre a ocultação de bens preciosos e a deposição ritual.
Algumas destas alabardas fazem parte da iconografia guerreira característica desta época, como é o caso de uma estela gravada encontrada em Longroiva, Mêda, em que uma figura humana ostenta uma alabarda deste tipo.
Oferta de José Henriques Pinheiro, professor do Liceu de Bragança e sócio correspondente da SMS, em novembro de 1891.
Composição Química
MSA-781 Arsénio (As): 4,0; Prata (Ag): 0,035; Níquel (Ni): 0,058; Cobre (Cu): 95,907; % total de impurezas: 4,093
MSA-782 Arsénio (As): 5,3; Prata (Ag): 0,013; Níquel (Ni): 0,025; Bismuto (Bi): 0,001; Cobre (Cu): 94,661; % total de impurezas: 5,339
Bibliografia
- Seán P. Ó Ríordáin, "The halbert in bronze age Europe", Oxford, 1937, Archaeologia, or Miscellaneous Tracts Relating to Antiquity, Vol. LXXXVI, p. 288, 291, 320.
- Mário Cardoso, "Breves observações a propósito das análises espectrográficas de alguns instrumentos metálicos da Idade do Bronze, pertencentes ao Museu de Martins Sarmento", Revista de Guimarães, vol. 70, 1960, p. 169-184.
- Obras de Mário Cardozo, vol. I, 1994, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, p. 409-427.
- Revista de Guimarães, vol. IX, 1892, p. 68.
- Francisco Martins Sarmento, Manuscritos Inéditos, Cad. 44, p. 54.
- Francisco Martins Sarmento, Antiqva - Apontamentos de Arqueologia, 1998, p. 466.
- Gabriel e Adrien Mortillet, "Musée préhistorique", Paris, 1881, pl. LXVIII, fig. 694.
- Maria de Lurdes Bártholo, "Alabardas da época do bronze no Museu Regional de Bragança". In: Actas e Memórias do I Congresso Nacional de Arqueologia, Lisboa, Instituto de Alta Cultura, Vol. I, 1959, p. 435-436 e fig. 9.
- Armando Coelho Ferreira da Silva, Ordo zoelarum: arqueologia e identidade do nordeste de Portugal, Museu do Abade de Baçal, 2011.
- A idade do bronze em Portugal - discursos de poder, Instituto Português de Museus, 1995, p. 29-31.
- João Carlos de Senna-Martinez, Aspectos e Problemas das Origens e Desenvolvimento da Metalurgia do Bronze na Fachada Atlântica Peninsular, Estudos Arqueológicos de Oeiras, vol.15, 2007, p. 119-134
Um Mês, Uma Peça
1 a 28 de fevereiro de 2025
Candil do séc. XI/XII
A Sociedade Martins Sarmento dando continuidade em 2025 ao ciclo UM MÊS, UMA PEÇA, onde serão expostas e estudadas em detalhe 12 peças da sua coleção, escolheu para o mês de fevereiro um candil do séc. XI/XII.
Esta peça poderá ser visitada no nosso espaço de terça a domingo das 10h00-12h30 e das 14h30-17h30.
Super Categoria Arqueologia
Categoria Cerâmica
Subcategoria Iluminação
Nº de Inventário 733
Datação Séculos XI/XII
Técnica de fabrico Manual e torno
Dimensões (cm) Comp. 16,5 x Alt. 6,7 x Diâm. máx 7,3; Diâm. base 4,2
Descrição
Candil de cerâmica, com bico de paredes retas e lábio em bisel com vestígios de fuligem na ponta, coberto em ambas as faces de engobe esbranquiçado. Apresenta base plana ligeiramente convexa, depósito bitroncocónico com canelura saliente a meia altura do depósito, asa de fita em forma "D" de secção oval que parte da carena até à base do colo, com uma pequena porção do colo de forma troncocónica. Pasta bege clara, homogénea e bem depurada com alguns elementos não plásticos de grão médio.
Este candil ostenta a decoração de corda seca parcial de que subsistem ainda manchas de esmalte amarelo melado dispostas na parte superior do depósito.
Além disso, a forma do depósito assim como o bico de canal com as características paredes facetadas que formam uma reentrância entre o contorno do depósito e do bico de canal, situam este candil no contexto das produções dos séc. XI/XII.
Candil de proveniência desconhecida, tendo sido oferecido ao museu da SMS pela senhora D. Amélia Vaz Monteiro Gomes, de Sintra em 3 novembro 1962.
Historial
Segundo o artigo "E da noite se fez dia... Alumiar em período islâmico" publicado na revista digitAR é explicado de forma sucinta e clara a definição de candil e a sua evolução, conforme é descrito a seguir: "A palavra candil deriva da palavra árabe qindīl, a qual para uns autores é um helenismo (Rosselló Bordoy, 1991: 149), defendendo outros que procede do término latino candela, do qual também provém a palavra candeia (Gómez Martínez, 2004: 276). Frequentes em contextos islâmicos, os candis são recetáculos de azeite utilizados na iluminação doméstica, conhecendo-se dois tipos principais.
O primeiro consiste numa forma fechada, constituída por um reservatório (que continha o azeite), colo (por onde se introduzia o combustível), bico (onde se colocava o pavio) e uma asa para facilitar o manuseamento (Serrano, 2011: 56-57).
Este tipo é o mais antigo e frequente, surgindo em época emiral (séc. VIII-IX), desenvolvendo-se no decurso do período califal (séc. X-XI), tendo atingido o seu auge durante a época almorávida (séc. XI-XII) /almóada (séc. XII-XIII).
A evolução morfológica deste tipo está intimamente ligada à dicotomia diâmetro do reservatório/comprimento do bico: os mais antigos apresentam reservatórios grandes e bicos pequenos, morfologia que os aproxima das antecedentes lucernas romanas, enquanto os mais recentes possuem bicos maiores e reservatórios menores. Verifica-se, pois, que os mais antigos
apresentam bicos muito pequenos, amendoados, a que se sucedem candis com bico em forma de cauda de pato, evoluindo, no século IX, para bicos lanceolados (Zozaya Stabel-Hansen, 2007: 130). A evolução prossegue com o seu alargamento, fazendo lembrar uma “orelha de mula” (segunda metade do século IX), uma “orelha de lebre” (primeiro quartel do século X), sendo que começam a desenvolver paredes facetadas. No período de taifas, as cinco facetas criam uma “forma de barca”, voltando a afilar-se no período almorávida e, por último, no almóada os bicos são largos e profundos, apresentando-se facetados (Zozaya Stabel-Hansen, 2007: 130).
No que concerne aos acabamentos, verifica-se uma diversidade que passa dos alisados aos vidrados, passando pelos engobes e aguadas. Relativamente à ornamentação, estão presentes as mais variadas técnicas, nomeadamente, incisão, pintura (a branco, preto e vermelho) e corda seca parcial, bem como o vidrado parcial, o verde e manganés e os pingos de vidrado.
O segundo tipo, os candis de disco impresso, surgem em época almóada e assemelham-se às lucernas de períodos anteriores, facto que levou a que inicialmente se considerassem como elementos de transição entre a romanidade e o período islâmico (Zozaya Stabel-Hansen, 1999: 261).
Vidrados essencialmente a verde ou melado, estes candis eram produzidos a molde. Apresentam forma geralmente circular, corpo troncocónico ou cilíndrico, base plana, face superior com pequeno orifício para introduzir o azeite no reservatório, asa vertical circular e bico de canal de secção em U."
Bibliografia
- CAVACO, Sandra; COVANEIRO, Jaquelina; CATARINA COELHO, Maria; SOFIA GOMES, Ana; INÁCIO, Isabel; BUGALHÃO, Jacinta; CRISTINA FERNANDES, Isabel; et al. "E da noite se fez dia... Alumiar em período islâmico". digitAR - Revista Digital de Arqueologia, Arquitectura e Artes nº 8 (2022), pp. 227-242.
- GÓMEZ MARTÍNEZ, Susana (2004). La Cerámica Islámica de Mértola: producción y comercio. Tesis doctoral. Facultad de Geografía e Historia. Universidad Complutense de Madrid.
- KEMNITZ, Eva (1993/94). Candis da colecção do Museu Nacional de Arqueologia. O Arqueólogo Português, Série 4, Volume 11-12 (1993/1994 - ed. 1999), pp. 427-472
- Núcleo arqueológico da Rua dos Correeiros / coord. Fundação Millennium BCP; textos Jacinta Bugalhão, IGESPAR, Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, Rui Carvalho (BG 37-7-152)
- Revista de Guimarães (1962), vol. 72, p. 491-492
- ROSSELLÓ-BORDOY, Guillermo (1991). El nombre de las cosas en al-Andalus: Una propuesta de terminología cerámica. Palma de Mallorca: Sociedad Arqueológica Luliana y Museo de Mallorca.
- SERRANO, Liliana (2011). Lucernas, candis e candeias: para uma distribuição geográfica no território português. Dissertação de mestrado em Arqueologia e Território. Faculdade de Letras. Universidade de Coimbra.
- VASCONCELLOS, José, (1902), “Candeias árabes do Algarve”, O Archeólogo Português, vol. 7, série 1, Imprensa Nacional, Lisboa, pp. 119-123
- ZOZAYA STABEL-HANSEN, Juan (1999). Una discusión recuperada: candiles musulmanes de disco impreso. Arqueología y Territorio Medieval, 6, pp. 261-278.
- ZOZAYA STABEL-HANSEN, Juan (2007). Los candiles de piquera. Tierras del Olivo. El olivo en la Historia. Fundación El Legado Andalusí, pp. 125-135.