UM MÊS, UMA PEÇA - 1 a 30 de abril de 2026 - Cristo na Cruz
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RAUL BRANDÃO NASCEU || 12 março
“(…) os intelectos mais educados na compostura clássica e mais abertos às vozes da sabedoria antiga, consideram-no ainda o autor predileto; de nenhum poeta latino, como de Horácio, tantos versos foram elevados à notoriedade e à difusão do provérbio. Embora o seu fascínio emane, muitas vezes, mais do conteúdo moral da sua obra do que das suas qualidades artísticas, e suscite mais uma ressonância humana do que uma verdadeira emoção estética, no entanto, ele permanece, até ao presente, para muitíssimas almas, o mais seguro mestre de vida, a quem se volta com assídua simpatia, até em razão da sugestão contida nos seus versos sóbrios e densos de conceitos” (Ettore Paratore, 1987).
O livro de Horácio, existente na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, reúne os trabalhos que constituem as designadas “Odes”, “Epodos”, “Carmen saeculare”, “Arte poética”, “Sátiras” e “Epístolas”, seguidos dos comentários de quatro estudiosos clássicos – Pseudo-Acro, Pomponius Porphyrio, Christophorus Landinus e Antonius Mancinellus.
Muito sumariamente, e segundo alguns investigadores horacianos, é nos “Epodos” que o escritor dá a conhecer o seu talento literário. Nestes textos, Horácio faz a crítica social e política do seu tempo, assim como refere a ternura e a serenidade que o dia-a-dia no campo proporciona. Nas “Odes”, destaca-se a especial feição poética (linguagem e técnica) do autor. Organizadas em quatro livros, Horácio versa sobre os homens da política, e suas respetivas conquistas, glorifica os deuses, elogia os seus amigos, recorda lugares que lhe despertaram interesse e alimentaram a sua criatividade literária. Nas “Sátiras”, escritos organizados em dois livros, o escritor perpassa vários aspetos da sociedade do seu tempo e da sua própria vida. Temas como gastronomia e literatura, perspetivas literárias, morais e filosóficas, observações sobre o quotidiano e as figuras que o povoam, são, em variados momentos, interpolados com pormenores da experiência pessoal de Horácio. É neste último aspeto que alguns investigadores particularizam o escritor latino, considerando o autor que, na sua obra, mais elementos autobiográficos oferece aos leitores. Em “Carmen saeculare”, hino escrito a pedido de Augusto e dedicado a Apolo e Diana, Horácio constrói um texto de louvor a Roma e faz destacar o alcance administrativo do imperador Augusto. Nas “Epístolas”, o escritor reflete sobre o lugar e a função do poeta e da poesia na sociedade, sobre os seus conhecimentos sobre o estilo poético e sobre as suas composições literários. É neste grupo de escritos que se inscreve, uma das mais conhecidas produções literárias de Horácio, a “Arte poética” ou “Epístola aos Pisões”. É considerada, uma espécie de teoria da arte. O escritor debruça-se sobre os princípios da poesia, da construção poética e da formação do poeta, entre outros aspetos.
Os académicos que se têm dedicado aos estudos dos textos de Horácio, destacam as particularidades dos seus trabalhos – a construção poética e as ideias filosóficas que explora – e reconhecem a marcada influência que incutiu na cultura europeia. A “poesia desafiante, desde logo pela abstração sintética do latim em que foi composta” (Frederico Lourenço, 2023), influenciou destacadas figuras das letras. Em Portugal, a marca da escrita de Horácio é assinalada em Luís de Camões e Fernando Pessoa.
Rosado Fernandes (2012), referindo-se ao talento literário de Horácio, destacou que:
“A obra poética que nos deixou é o reflexo da sua personalidade equilibrada, sem ser demasiado satisfeita, do seu carácter ambicioso, sem que por isso fosse possuído por eterno descontentamento. Combinava um bom gosto muito seu, uma ironia prazenteira e um labor incansável, com os resultados da sua experiência poética, com a leitura da poesia grega e romana e com os conhecimentos teóricos que aprendera na escola de Orbílio, nas escolas de Atenas e nos estudos que fez pela vida fora. Desta sorte, a sua obra – em que a τέχνη (ars) grega se combina admiravelmente com o ltalum focetum e com a ironia que ao poeta era peculiar –, ainda que apresente certa diversidade, não deixa de estar unida interiormente pelo seu equilíbrio e bom senso estético”.
O professor Frederico Lourenço (2023) lembra, ainda, que expressões como carpe diem, “juntar o útil ao agradável”, in medias res e “elefante branco”, saíram da obra do escritor latino.
O livro da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento pertenceu a António Alentor, e integra o Fundo de Livro Antigo, nomeadamente o classificado como livro raro. Esta edição dos textos horacianos, antecedidos por uma “carta-dedicatória” ao humanista italiano Julius Pomponius, possui uma observação sobre a obra e uma nota biográfica sobre o escritor romano, ambas da autoria do pedagogo Antonius Mancinellus. Apresenta, também, um poema do poeta e humanista italiano Domitius Palladius, assim como reune as considerações de quatro estudiosos latinos do séc. XV, cujas entradas são identificadas ao longo do texto. Exibe várias capitulares decoradas e possui mais de duas dezenas de ilustrações. Segundo alguns investigadores, os livros desta publicação de 1505, terão sido a primeira edição ilustrada a ser impressa em Itália. As imagens – xilogravuras – integradas na obra foram, algumas delas, elaboradas especialmente para esta edição; outras já tinham sido publicadas em obras anteriores, como na “Biblia vulgare istoriata” (1490) e no livro de Titus Livius, “Ab urbe condita” (1493).
O exemplar da Sociedade Martins Sarmento está incompleto, faltando a folha de rosto, as folhas 81, 113, 265, 266 e 3 folhas com o “Index” e “Registrum”. A encadernação é posterior à edição do livro, sendo constituída por pastas de cartão revestidas a couro; a lombada apresenta quatro nervos e cinco casas. Na segunda casa exibe um rótulo castanho com o nome do autor, gravado com ferros dourados. As restantes casas são decoradas a ouro, com motivos florais. Para a descrição bibliográfica foi tomado como referência o exemplar existente na biblioteca de Munique – Bayerische Staatsbibliothek –, cujo exemplar, acessível digitalmente, apresenta caraterísticas físicas e tipográficas semelhantes.
No âmbito do programa “Um mês, uma peça”, o livro de Horácio – Horatii Flacci lyrici poetae opera. Cum quatuor comentariis: & figuris nup additis – estará em exposição, na sede da Sociedade Martins Sarmento, durante o mês de fevereiro. Esta obra encontra-se descrita no Catálogo Digital da Biblioteca, podendo, também, ser consultada no Arquivo Digital.
Sessão de Apresentação
Sala de Leitura da SMS
31 JAN, 15h30
LANÇAMENTO DO VOL. 134/135
REVISTA DE GUIMARÃES
A
Revista de Guimarães é uma publicação da Sociedade Martins Sarmento,
editada desde 1884, sendo uma das mais antigas publicações periódicas
portuguesas em atividade e uma referência na cultura portuguesa
contemporânea.
Ao longo da sua existência a Revista de Guimarães tem
acolhido trabalhos nas mais diversas áreas de especialidade, com maior
foco na área das Ciências Sociais e Humanas, nomeadamente da Arqueologia
e da História. A apresentação deste volume estará a cargo do professor
Francisco Azevedo Mendes.
Francisco Azevedo Mendes, professor
auxiliar no Departamento de História do Instituto de Ciências Sociais da
Universidade do Minho, onde leciona Teoria da História. É membro do
Lab2PT (Laboratório de Paisagens, Património e Território) e do IN2PAST
(Laboratório Associado para a Investigação e Inovação em Património,
Artes, Sustentabilidade e Território).
Presépio de figurado de Barcelos
Super Categoria Etnologia
Categoria Artes plásticas
Subcategoria Olaria figurativa
Nº Inventário ET-0463
Denominação Presépio de figurado de Barcelos
Autor Domingos Gonçalves Lima - "Mistério"
Cronologia 1965
Fabrico/ Marca Oficina do Oleiro "Mistério", Galegos Santa Maria, Barcelos
Tema Religião
Técnica Moldagem - Modelagem
Marca Assinado na base, lado direito "MISTÉRIO"
Matéria Barro branco, arame e tintas multicolores
Dimensões 28 x 31 x 22,5 cm
Incorporação Oferta de Margarida Rosa Cassola Ribeiro em 30 de Março 1971.
Descrição: A obra mostra uma representação artesanal do Presépio de Natal.
O presépio retrata o nascimento de Jesus e inclui figuras como a Sagrada Família; os três Reis Magos; os animais; o Anjo e estrela.
São José - Figura de barro representando S. José ajoelhado, envolvido numa veste azul-turquesa pregueada, que se cruza com manto amarelo ocre, que lhe cobrem todo o corpo. O manto apresenta-se franjado, com as franjas incisas e pintadas de dourado. O braço direito, encontra-se arqueado, com a mão direita fechada, empunhando um cajado, enquanto leva à cara a mão esquerda aberta. A cabeça tem cabelo grisalho, riscado com incisões. O rosto está coberto por bigodes e barba cinzenta. As orelhas são salientes, com o ouvido marcado, os olhos duas ovais incisas com um ponto negro central, o nariz é proeminente, triangular, com uma placa semicircular horizontal que as narinas perfuram, sendo a boca uma incisão horizontal com o interior pintado a vermelho. Apresenta uma auréola circular no topo da cabeça, dourada, recortada nos bordos, enfeitada com incisões circulares, e linhas retas e oblíquas. O cajado é composto de uma haste feita com um segmento de arame pintado de amarelo.
Nossa Senhora - Figura de barro representando Nossa Senhora, ajoelhada, com a cabeça coberta por um véu branco, veste uma túnica branca pregueada, adornada com linhas verticais douradas. As mãos sobressaem da túnica branca, cruzadas. O rosto é afilado, com o queixo apontado. Por baixo do véu, pequenas incisões figuram os cabelos em franja. Os olhos são duas incisões ovais perfuradas com um ponto negro ao centro, o nariz é saliente, triangular, com as narinas perfuradas, sendo a boca uma incisão horizontal, com os lábios salientes e o interior pintado de vermelho. Apresenta uma auréola circular dourada no topo da cabeça, recortada nos bordos, enfeitada com incisões circulares e linhas retas e oblíquas.
Menino Jesus - Figura de barro representando o Menino Jesus deitado sobre palhinhas. Estas são feitas com segmentos tubulares dispostos verticalmente, apoiados sobre outros segmentos, dispostos paralela e horizontalmente. O menino encontra-se deitado, com o corpo despido, as pernas esticadas, os pés com os dedos marcados, uma perfuração figurando o umbigo, de braços abertos ao alto. No rosto as orelhas são salientes, os olhos são duas incisões ovais e um ponto negro perfurado no centro, o nariz é proeminente, de forma triangular, com as duas narinas perfuradas. São visíveis as bochechas e o queixo, e a boca com o interior vermelho. O cabelo é escuro, com incisões.
Reis Magos - Três figuras com coroas, recortadas nos bordos, vestes coloridas e presentes simbólicos.
Vaca deitada - Figura de barro representando uma vaca deitada , de cor castanha-ocre. O corpo do animal, é semicilíndrico, sendo as coxas traseiras e dianteiras, de ambos os lados, marcadas com incisões profundas, salientando as patas encostadas ao corpo e os cascos pintados de negro. Uma comprida cauda negra, rodeia a pata traseira. O pescoço está levantado, sendo ladeado por uma fileira de incisões pintadas de negro. A cabeça apresenta dois cornos paralelos recurvados e pontiagudos, pintados a branco com a ponta negra. Por baixo as orelhas aparecem espetadas, ovais. Os olhos são ovais, grandes, incisos, brancos com um ponto negro perfurado ao centro. O focinho saliente tem a forma cilíndrica, com duas perfurações na ponta figurando as narinas e a boca aberta, pintada de vermelho no interior.
Burro deitado - Figura de barro representando um burro deitado de cor cinzenta. O corpo do animal, é semicilíndrico. O pescoço é cónico, com um dos seus lados coberto por incisões sucessivas, negras, figurando a crina. No topo da cabeça, as orelhas triangulares apontam para cima, sendo o interior oco e pintado de cinzento. Dispostos lateralmente, os olhos são ovais, grandes, incisos, brancos com um ponto negro perfurado ao centro. O focinho saliente tem a forma cilíndrica, com duas perfurações na ponta figurando as narinas e a boca aberta, pintada de vermelho no interior.
Anjo e Estrela: Um anjo a flutuar acima das figuras e uma grande estrela dourada no topo do presépio, simbolizando a Estrela de Belém.
Galo: Na tradição cristã, é o responsável pelo despertar das alvoradas "o galo cantou à meia-noite do nascimento de Jesus".
Cenário: A cena está montada sob um arco azul claro decorado com estrelas e bordas triangulares, recortadas e douradas.
Origem/Historial Faz parte da série de objetos de artesanato popular, que pertenciam à coleção particular da senhora D. Margarida Ribeiro (1911-2001), que doou à Sociedade Martins Sarmento entre 1969 e 1971, composta por 47 objetos de diferentes regiões do país, na sua maioria de Estremoz e Barcelos.
Autor Domingos Gonçalves Lima nasceu a 29 de Agosto de 1921 em Galegos São Martinho. Filho de mãe solteira, a trabalhar em Espanha, foi criado pela avó, Rosa Gonçalves Lima. Conta que a alcunha "Mistério" lhe tinha sido dada por ser uma criança débil, e os vizinhos dizerem ser um mistério ter sobrevivido. Aprendeu a fazer figurado com a avó, bonequeira, que o vendia na feira semanal de Barcelos. Inicialmente, fazia coisas simples, juntamente com a sua avó, para vender. Aos 12 anos, as suas peças já revelavam algum domínio da técnica do figurado de barro. Abordava temas do quotidiano rural, representando matanças do porco, juntas de bois e animais diversos. Por influência de uma educação profundamente religiosa, reproduziu esta temática nas alminhas, santos populares, presépios, Reis Magos, Ceias, Nascimento e Morte de Jesus. Devido às características das suas peças, sempre com um toque de humor, é bem aceite pelo público que o conhece pela alcunha de "Mistério", nome com que assina as peças. Casou-se com Virgínia Esteves Coelho (1924-2013), de quem teve doze filhos. Passou a vender por conta própria, mercadoria que comprava nas fábricas e peças a molde que fabricava com a mulher. Na década de 60 a notoriedade de Rosa Ramalho trouxe novo valor ao figurado feito à mão, que passou a ser vendido, já não como brinquedo de criança, mas como criação individual, peça única, para uma clientela urbana que procura o artigo em casa do artesão. Surgem as Feiras de Artesanato, no Estoril, em Belém, no Porto, Mercado Ferreira Borges, em Vila do Conde, onde os artesões expõem o figurado e trabalham ao vivo. "Mistério" cria um tipo de figuras com características próprias, de grandes orelhas, narizes desmesurados, olhos salientes. Sempre com um toque de humor, satiriza, cria Diabos a quem juntou a companheira e a família, a diaba e os pequenos diabinhos. Atento, reproduz cenas do quotidiano de trabalho e festa, figuras em atividades rurais. Recria o bestiário, galos, ouriços, figuras híbridas, fantásticas. Distingue-se nas cenas religiosas, as procissões de vários altares e numerosos participantes, as Alminhas em que põe padres e bispos no Inferno, no candelabro para sete velas, uma menorah que celebra o nascimento e a morte de Jesus, na Última Ceia, nos diversos tipos de presépios. Era a sua mulher Virgínia que pinta as figuras, acompanhando o gosto pela sátira do marido com as suas cores vivas, primárias, e a indiferença pelo realismo, roçando uma espécie de absurdo alegre - os Reis Magos de calças ou camisas cor-de-rosa vivo, São José de túnica azul-turquesa, cores que se tornaram igualmente uma das características definidoras do figurado de "Mistério".
Ganhou o primeiro prémio no III Salão de Artesanato do Casino Estoril com a peça Procissão Minhota, em 1983. Domingos "Mistério" morre em 1995. Os seus filhos Francisco e Manuel, que sempre trabalharam com o pai, continuam a sua obra, acrescentando novas criações aos modelos do pai e assinam as peças por "Mistério Filho F." e "Mistério Filho M."
Bibliografia
- CARDOSO, Cátia Daniela (2019). Memória e Identidade: Novos Paradigmas da Olaria e Figurado de Barcelos. Porto: Escola Superior de Educação. Dissertação de Mestrado.
- CARNEIRO, Eugénio Lapa (1962). Donde vem a confusão entre louças do Prado e louças de Barcelos. Barcelos.
- CEARTE. (2014). Caderno de Especificações para a Certificação. Câmara Municipal de Barcelos. [https://www.cearte.pt/public/media.501711554/files/gpao/191_CE_Figurado-Barcelos_20191127.pdf]
- CORREIA, Ana Rita Oliveira (2021). Bonecos, Coleção e Museu. O Figurado de Barcelos pelas mãos de Sellés Paes. Vol. I. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
- CORREIA, João Macedo (1965). As Louças de Barcelos. Cadernos de etnografia, nº 4. Barcelos: Oficinas Gráficas da Companhia Editora do Minho.
- JÚNIOR, J. R. Santos, Bonecos de Barro (1940). «Vida e Arte do Povo Português», Lisboa.
- PEIXOTO, Rocha (1966). As Olarias de Prado: Cadernos de Etnografia, nº 7, Museu Regional de Cerâmica.
- RIOS, Conceição (2006). Figurado de Barcelos: Desenhos de Barro. Câmara Municipal de Barcelos: Museu de Olaria
- REINA, Carina; MOSCOVO, Patrícia (2010). Variações sobre um tema: Figurado Barcelense: de Rocha Peixoto a Rosa Ramalho. «Boletim Cultural Póvoa de Varzim», 44, 7-45.
- Sociedade Martins Sarmento (1995). Exposição inventário de artesanato: olaria popular [catálogo].
- VILLAS BOAS, Joaquim Sellés Paes (1948). Notas de Cerâmica Popular III. O Vocabulário dos Oleiros de Barcelos in Separata do Vol. III de Ethnos, Lisboa
A LANTERNA MÁGICA
Caricatura e Imprevisto de RAFAEL BORDALO PINHEIRO
Nos 150 anos do Zé Povinho
Assinalando os 150 anos do periódico “A Lanterna Mágica”, de Rafael Bordalo Pinheiro, a Sociedade Martins Sarmento destaca a publicação e evoca a figura e a obra do artista, considerado o maior caricaturista português, tido, ainda, como o iniciador desta arte em Portugal.
Rafael Bordalo Pinheiro nasceu em 1846, no seio de uma família de artistas. Evidenciou gosto pelo teatro, fez incursões pela pintura, pela decoração e pela cerâmica, mas a caricatura foi a expressão artística que mais notoriedade lhe conferiu. Irisalva Moita afirma que “concorria em Rafael Bordalo Pinheiro um tão importante conjunto de predicados necessários ao caricaturista, espírito crítico, poder de síntese, penetração psicológica, amor ao próximo, desenho inciso e rápido, intuição, poder de fixação do essencial, que era neste campo que o Artista havia de, forçosamente, encontrar-se”.
A partir de 1870, os trabalhos de Bordalo Pinheiro, no domínio do desenho-caricatura, começam a formar-se com mais significado, sendo “A lanterna mágica” (1875) o primeiro periódico de crítica humorístico-caricatural de maior expressão. Em colaboração com importantes figuras do meio artístico e literário da época, Rafael Bordalo Pinheiro principia, neste órgão, a crítica metódica e regular ao governo, aos políticos, às instituições e às principais figuras da sociedade e da cultura portuguesa de oitocentos. Este periódico figura-se, assim como os trabalhos sequentes, nomeadamente “O António Maria”, o “Álbum das glórias” e “A parvónia”, numa espécie de arquivo/repositório de acontecimentos políticos, sociais e culturais da sociedade portuguesa do seu tempo que, para além do conhecimento que proporcionam sobre as posições e a personalidade do autor, permitem estabelecer o retrato de uma época, assim como refletir sobre o estado do país.
É ainda, no jornal “A lanterna mágica”, que Rafael Bordalo Pinheiro põe em cena, pela primeira vez, há 150 anos, a icónica e intemporal figura do Zé Povinho, representação do povo português. Acompanhar a vida do Zé Povinho, pela mão de Rafael Bordalo Pinheiro, é assistir ao desenrolar da cena político-administrativa, social, artística e cultural do país e conhecer os impactos das decisões dos seus principais atores – reis, príncipes, ministros, políticos, escritores, atores e instituições – no quotidiano do povo.
Caricaturista, com a pena e com o barro, embora, como escreve Raul Brandão (1903), também, os olhos, o nariz, as mãos e até o bigode que se encrespa, desenham e imitam, Rafael Bordalo Pinheiro dissecou graficamente a 2.ª metade do século XIX português, com sentido de humor, espírito crítico, evidenciando uma profunda afeição à liberdade e aos ideais republicanos. Maria Virgílio Cambraia Lopes (2005) assinala que “não se pode recordar sem um sorriso o caricaturista que, meticulosamente, semana a semana, durante trinta e cinco anos (de 1870 a 1905), registou – com a veia humorística que lhe era peculiar – tudo o que de relevante fez parte da vida cultural, social e política do país”.
Autor de numerosos trabalhos – muitos deles publicados em diversas publicações da época, nacionais e estrangeiras, outros tomaram forma enquanto obra ceramista – Bordalo Pinheiro foi uma figura de grande talento criativo e de caracterização do período em que viveu.
O traço artístico da obra cerâmica de R. Bordalo Pinheiro, manifesta-se no intenso colorido, na riqueza e na expressão das formas dos elementos naturalistas, no figurado de tipo popular e nas cenas de natureza etnográfica que o artista criou e executou na antiga Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.
Deixou-nos, entre muitos outros trabalhos, o figurado dos Passos da Paixão de Cristo, destinado às Capelas do Buçaco, por encomenda do Estado Português, e que atualmente se encontra no Museu José Malhoa; participou, também, na construção do Pavilhão de Portugal, na Exposição Universal de Paris (1889), assim como realizou a decoração do Pavilhão de Portugal, na Exposição Colombiana de Madrid (1892).
A exposição, A LANTERNA MÁGICA, a caricatura e o imprevisto de Rafael Bordalo Pinheiro, proporciona um olhar sobre a complexa e plural obra do caricaturista, um dos mais prolíficos artistas da segunda metade do século XIX em Portugal, acompanhando, também, a sua especial personagem o “Zé Povinho”, no quotidiano da vida política, social e económica da época.
Crucifixo
Super Categoria Arte
Categoria Metais
Nº de Inventário ET-591
Objeto Crucifixo
Proveniência Santa Eufémia de Prazins, Guimarães
Cronologia Séc. XII/XIII
Matéria Cobre e esmalte de Limoges
Técnica Champlevé
Dimensões 34 x 27,3 cm
Descrição
Crucifixo em cobre constituído por lâmina única (fundido?), anatomia sumária, gravada. Coroa em lâmina enrolada e soldada. Conserva ainda o esmalte no perizonium, mas já não nas cavidades oculares, onde certamente o teve.
Figuração de Cristo crucificado coroado, com o cabelo longo sobre os ombros. Cabeça reclinada sobre o ombro direito, braços retos, corpo encurvado e joelhos em posição frontal, levemente fletidos, pés posicionados lado a lado, fixos em dois pontos, delineados a cinzel sobre o supedâneo trapezoidal. Vestígios de decoração puncionada na coroa.
Perizonium longo envolvendo os joelhos e mais longo atrás, com pregas verticais esmaltadas a azul, sob o ventre e ao centro na vertical banda como cinto, branca.
Foi adaptado a uma cruz de fabrico posterior, patada, construída com duas lâminas estampadas e decoradas com punção formando padrão geométrico, unidas pelo bordo. Conserva espigão no arranque da haste para fixação em suporte.
Incorporação Oferta de Fernando da Costa Freitas, sócio correspondente da SMS, em 2 de junho de 1927. Filho do Dr. Avelino Germano da Costa Freitas, um dos fundadores da SMS.
Observação Numa comunicação do consócio Sr. Dinis de Santiago enviada à Sociedade Martins Sarmento, em agosto de 1927, este refere uma peça semelhante, existente no Museu de Berna, e cuja transcrição do comunicado transcrevemos:
«Tendo visto no último número da «Revista de Guimarães» a gravura que reproduz a interessante «Cruz Latina», valiosa peça arqueológica, que o Sr. F. da Costa Freitas há pouco tempo ofereceu à S. M. S., notei a grande semelhança que a imagem de Cristo colocada na dita cruz tem com outra imagem idêntica, embora já desprovida da cruz, existente no museu de Berna, na Suíça, proveniente da capela de Saint-Martin s/ Evolène.
São as duas imagens iguais no conjunto e nos pequenos detalhes que bem demonstram terem sido feitas na mesma época, notando-se apenas uma ligeira diferença na expressão fisionómica.
Esta imagem é considerada no museu de Berna como um dos mais curiosos espécimens de joalharia românica existente naquele edifício. É feito em cobre rebatido e dourado, mas como digo, não tem cruz, pois está actualmente fixado a um suporte moderno.
Foi classificado por Jakob Stammler (der Paramentschatz im Historischen Museum zu Berne) como obra do século XII ou XIII e dum grande valor arqueológico. H. Vulliety na «La Suisse á travers les âges» traz uma notícia sobre esta peça e na página 115, na fig. 267 a gravura que a reproduz.»
Glossário
Champlevé - é uma técnica de esmalte onde se criam cavidades na superfície do metal (cobre ou bronze), por meio de gravação, entalhe, ou erosão ácida. Esta técnica foi amplamente utilizada na arte medieval, especialmente em objetos de arte de regiões como Limoges (França), Colónia (Alemanha) e Liège (Bélgica).
Perizonium - peça de vestuário de Cristo crucificado, também conhecido como "pano de pureza".
Patada - objeto que recebeu uma pátina (uma camada de oxidação ou desgaste artificial). É um acabamento que simula o envelhecimento ou um efeito desgastado em materiais como madeira ou metal.
Exposições
- Comemorações dos 850 anos da Fundação de Abrantes, Câmara Municipal de Abrantes, de 23/11/1998 a 13/01/1999
- Azul e ouro. Esmaltes em Portugal da Época Medieval à Época Moderna, Museu Nacional de Soares dos Reis de 22/7/2021 a 31/10/2021
- Azul e ouro. Esmaltes em Portugal da Época Medieval à Época Moderna, Museu Nacional Machado de Castro de 19/11/2021 a 23/01/2022.
Super Categoria Arqueologia
Categoria Artefactos ideotécnicos
Subcategoria Rituais
Nº de Inventário MSA-2648 e MSA –2649
Objeto Campainhas romanas
Proveniência Vaca Negra, Urgeses, Guimarães
Cronologia Século II d.C.
Matéria Bronze
Técnica Fundição
Altura 7,2 e 5,9 cm
Diâmetro 9,9 e 10,7 cm
Peso 508 e 326 g
Descrição
Campainhas ou tintinnabula de secção hemisférica, de dimensões idênticas, uma está completa, a outra já não possui o pedúnculo de suspensão.
As campainhas romanas de Urgezes
Um dos achados romanos mais peculiares de Portugal foi a recolha de um par de campainhas de bronze (tintinnabula), e duas ânforas romanas, na freguesia de Urgezes, ao arrancar uma árvore. O achado terá ocorrido em 1921, ou pouco antes, porque foi nesse ano que os materiais foram doados ao Museu Martins Sarmento, pelo Dr. Joaquim José de Meira.
Foi um achado ocasional, com um contexto incerto, característico de grande parte dos achados arqueológicos mais expressivos ocorridos na época em questão. Além do seu extraordinário estado de conservação, trata-se de dois raros exemplares de instrumentos musicais da Antiguidade que se conservam.
Ao classificar estas duas peças idênticas como instrumentos musicais, não devemos limitar a sua possível utilização original, que pode ter sido diversa. Campainhas foram usadas quer para a produção de música, propriamente, quer como alfaias litúrgicas, objetos votivos, peças colocadas em sepultamentos, objetos utilizados em cerimónias públicas como inaugurações ou abertura de festividades. Era também comum a utilização de campainhas como objeto apotropaico, colocado junto às portas das casas como elemento de proteção espiritual, ou com uma função mais simples como a sinalização de animais nos pastos.
O facto de desconhecermos hoje o seu contexto específico de deposição limita bastante a sua interpretação, quer quanto à real função destas peças, quer quanto ao sítio arqueológico onde elas foram recolhidas, algures no lugar conhecido como Vaca Negra, não longe da Igreja Matriz ("Velha") de Urgezes. Também junto a esta Igreja recolheu Martins Sarmento fragmentos de tegulae.
Parece assim verificar-se um padrão em relação à identificação de vestígios de época romana nas imediações das igrejas paroquias do Concelho de Guimarães, ou na área do núcleo original das paróquias.
Bibliografia
- BEARD, M. (2010). Pompeia: O dia-a-dia da mítica cidade romana, A Esfera dos Livros, Lisboa.
- BLÁZQUEZ MARTÍNEZ, José María (1984-85) - Tintinnabula de Mérida y de Sasamón (Burgos). Zephyrus 37-38, pp. 331-335.
- DAREMBERG, Charles Victor e SAGLIO, Edmond (1892) - Dictionnaire des Antiquités Grecques et Romaines, tomo V, p. 341 [tintinnabulum], Paris.
- PINA, José (1921) - Boletim, Revista de Guimarães, XXXI, p. 94.
- VILLING, Alexandra (2002) – For Whom did the bell toll in ancient Greece? Archaic and Classical Greek bells at Sparta and beyond, The Annual of the British School at Athens, 97, pp. 223-295.
Super Categoria Arqueologia
Categoria Cerâmica utilitária
Subcategoria Iluminação
Nº de Inventário MSA-2500
Objeto Candela
Proveniência Eiriz, Paços de Ferreira
Época Romana
Cronologia séc. IV-V d.C.
Matéria Cerâmica
Técnica Torno
Largura 7,5 cm
Altura (parte central) 3,8 cm
Diâmetro bocal 2,5 cm
Comprimento 10 cm
Descrição
As designadas “lucernas abertas” ou candelas, constituem uma nova variante no que diz respeito à forma dos recipientes romanos de iluminação.
Estas peças caracterizam-se pela sua forma aberta e por serem produzidas em contextos tardios, nomeadamente no séc. II- VI, convivendo ainda com algumas tipologias de lucernas tardias.
As candelas são difíceis de tipificar por serem fabricadas a torno, o que implica a criação de numerosas variantes morfológicas.
Deste tipo, estão identificadas candelas em Braga, Póvoa do Varzim, Vila Praia de Âncora, Alvarelhos, Porto, Amarante, Guifões e Maia.
Esta candela, de tipo 3, apresenta o corpo hemisférico e paredes arqueadas. Com bordo envasado e lábio boleado introvertido de desenvolvimento horizontal. De fundo ligeiramente côncavo e de médias dimensões, apresentando marcas do torno e da corda de oleiro com que a peça foi cortada. O rostrum central cilíndrico que se desenvolve até ao limite superior do bordo, apresenta três fendas verticais ovaladas. Possui asa de fita, ligeiramente elevada. A pasta é compacta de cozedura uniforme, de coloração cinzento-escuro devido ao contacto com a chama. Apresenta elementos não-plásticos compostos à base de quartzo e mica de calibre médio/grosso. A superfície é alisada com vestígios de espatulamento com a mecha.
Desconhece-se o ano de entrada da peça no museu bem como o seu doador.
Bibliografia
- ALMEIDA, José António Ferreira de, Introdução ao estudo das Lucernas Romanas em Portugal, In O Arqueólogo Português, Lisboa, 2ª Série, 1953, vol. 2, pp. 187, estampa XLIV, nº 220
- BAIRRÃO OLEIRO, João Manuel, Lucernas romanas: catálogo, Coimbra, 1952, p. 28, Est. VIII, nº 14
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