UM MÊS, UMA PEÇA 2026 - Epígrafe de Caturo, filho de Viriato, da Citânia de Briteiros
UM MÊS, UMA PEÇA 2026 - Epígrafe de Caturo, filho de Viriato, da Citânia de Briteiros
Super Categoria Arqueologia
Categoria Epigrafia
Nº Inventário SMS-Epi-0007
Denominação Epígrafe de Caturo, filho de Viriato, da Citânia de Briteiros
Cronologia Século I d. C.
Matéria Granito
Dimensões 38 x 48 x 26 cm
Leitura
[C]aturo
Viriatis
Incorporação Coleção de Francisco Martins Sarmento
(descoberta em 1880).
Descrição e origem/historial
A peça que destacamos é um elemento em granito com uma inscrição latina numa das faces. É uma das várias epígrafes que integram o conjunto recolhido na Citânia de Briteiros, neste caso ainda no decorrer das campanhas de escavação promovidas por Francisco Martins Sarmento. Este elemento arquitetónico foi identificado em 3 de setembro de 1880, no decorrer da escavação de um dos bairros habitacionais da acrópole da Citânia. Curiosamente, o achado deu-se umas três semanas antes da visita à Citânia dos elementos que, vindos de Lisboa, participavam no Congresso Internacional promovido nesse ano.
Um detalhado croquis, feito por Sarmento no seu caderno de campo, permite-nos a localização da construção junto da qual apareceu. Estaria no derrube aparente de uma estrutura circular. No entanto, observando-se o local, este elemento podia ter integrado uma parede de uma casa redonda, de facto, mas é também possível que ele tenha caído da parede que delimita o conjunto doméstico, que aparenta identificar, da rua principal da acrópole. Pode ter feito parte de um lintel, mas, mais provavelmente, faria parte de uma ombreira. Embora se conheçam várias epígrafes localizadas no interior dos pátios de vários conjuntos familiares, é também possível que algumas assinalassem o nome de um proprietário, na porta que abria para uma rua pública.
A inscrição foi publicada por Sarmento, em 1884, no Boletim da Real Associação dos Architectos Civis e Archeólogos Portuguezes (atual AAP) e, desde então, foi sendo reproduzida em diferentes corpora das epígrafes identificadas na Citânia de Briteiros. É uma inscrição simples, que contém apenas dois nomes próprios, onde se lê "Caturo, (filho de) Viriato", depreendendo-se a filiação pela terminação do segundo nome. O primeiro nome identifica o proprietário da casa, o segundo será o nome do respetivo pai.
A "casa" em questão é, como nos outros espaços habitacionais da Citânia, um conjunto de casas, ou seja, um espaço delimitado por um muro perimetral, contendo três construções circulares, uma das quais com vestíbulo, e duas construções angulares contíguas. As portas destas estruturas abriam para um pátio central, onde a rocha-mãe foi aplanada para servir de pavimento. Vêem-se depois duas aberturas para a rua principal da acrópole da Citânia, das quais provavelmente apenas uma será original. Nas traseiras do conjunto, poucos metros abaixo, passa a primeira muralha.
Temos assim que Caturo (cujo nome por vezes também se traduz como "Caturão"), filho de Viriato, era um membro da aristocracia local, o que se depreende das características e localização da sua casa, bem como do recurso à escrita alfabética latina para se identificar. A inscrição está datada do século I d. C., mas a casa será mais antiga, posto que se trata de um conjunto mais característico da centúria anterior. As casas construídas na época em que esta epígrafe terá sido gravada, seguiam já o modelo da casa romana, apenas com compartimentos angulares e coberturas de tegula. Este misto de diferentes aspetos culturais e tecnológicos é muito comum nos castros da região, ao longo do século I.
Caturo e Viriato são nomes indígenas bastante comuns no território galaico-lusitano. O primeiro nome é mais comum em Briteiros, mas do nome Viriato, esta inscrição é caso único na Citânia.
Nos Elementos de un Atlas Antroponímico de la Hispania Antigua, de Jürgen Untermann (1965), temos uma ideia da dispersão geográfica destes dois nomes, entre o Noroeste de Portugal e a Estremadura espanhola, sugerindo afinidades linguísticas na Idade do Ferro, dentro deste vasto território do Ocidente da Ibéria.
Bibliografia
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- GUIMARÃES, João (1901): Catálogo do Museu Archeologico. Revista de Guimarães, vol. 18 (1-2), pp. 38-72.
- LUJÁN MARTÍNEZ, Eugenio (2006): The Language(s) of the Callaeci. In ALBERRO, M. e ARNOLD, B. (eds.) - The Celts of the Iberian Peninsula, e-Keltoi, vol. 6, Milwaukee: Center for Celtic Studies, University of Wisconsin-Milwaukee, pp. 715-748.
- REDENTOR, Armando (2017): A Cultura epigráfica no Conventvs Bracaravgvstanvs (Pars Occidentalis). Percursos pela
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- SARMENTO, Francisco (1883-1884): Inscripções Inéditas. Boletim da Real Associação dos Architectos Civis e Archeólogos
Portuguezes. Lisboa, 2ª série. 4:4, 4:5 e 4:7, pp. 58-59, 69-70 e 105-106.
- SARMENTO, Francisco (1905): Materiaes para a Archeologia do Concelho de Guimarães. Citânia. Revista de Guimarães,
vol. 22 (3-4), pp. 97-123.
- UNTERMANN, Jürgen (1965): Elementos de un Atlas Antroponímico de la Hispania Antigua. Madrid: Consejo Superior de
Investigaciones Científicas, Instituto Español de Prehistoria.


